Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
A entrevista conduzida pela jornalista Paula Pereira traz o relato de vida de Dona Judite Rodrigues da Silva, com a participação de sua filha Adriana, que complementa algumas lembranças e experiências da família. Ao longo da conversa, Dona Judite compartilha memórias de uma trajetória marcada por trabalho duro, simplicidade e dedicação à família no interior do Norte de Minas.
Dona Judite nasceu em 1946, na zona rural de São João da Ponte, em uma família humilde de lavradores. Filha de pais trabalhadores, cresceu em meio à pobreza e desde muito cedo precisou ajudar no sustento da casa. Seu pai trabalhava na roça e também como carpinteiro, enquanto sua mãe cuidava da família e auxiliava no trabalho rural. Ainda criança, Dona Judite lembra que havia poucas brincadeiras, pois a rotina era voltada principalmente para o trabalho e para ajudar os pais. Aos 12 anos, ela já trabalhava com atividades da roça e em serviços como fazer rapadura e farinha.


Durante a entrevista, Paula Pereira conduz a conversa perguntando sobre as lembranças da infância e sobre como era a vida no interior naquela época. Dona Judite conta que tudo era muito simples: não havia televisão, telefone ou muitos bens materiais. Mesmo assim, havia união familiar e o necessário para sobreviver, com alimentos produzidos na própria terra.
Aos 19 anos, Dona Judite se casou com um homem viúvo, que já tinha um filho pequeno, Alcino, a quem acolheu como filho desde o início. A filha Adriana relembra esse momento durante a conversa, destacando que a mãe assumiu responsabilidades desde o começo do casamento. Depois de se casar, Dona Judite continuou vivendo na roça, trabalhando ao lado do marido e construindo a própria família.
Ao longo dos anos, o casal teve 12 filhos — oito mulheres e quatro homens: Maria dos Santos, Renildo, Vanilda, Marlene, Ana Maria, Adenilson, Edilene, Devanilson, Vanessa, Edimilson, Adriana e Fabiana — todos criados em meio a muito trabalho, disciplina e esforço. Dona Judite relata que cuidava da casa, preparava a comida, buscava água, lavava roupas no rio e ainda ajudava na lavoura. Muitas vezes levava comida para os trabalhadores da roça e, depois de entregar, também pegava na enxada para trabalhar. Mesmo com tantas dificuldades, ela lembra que havia fartura do que produziam: plantavam milho, feijão, criavam galinhas e porcos e produziam boa parte do que consumiam.
Adriana participa em alguns momentos da entrevista reforçando as lembranças da mãe e recordando detalhes da vida familiar, como a rotina simples e o fato de o rádio ter sido uma das poucas formas de entretenimento da família. Quando o marido de Dona Judite conseguiu comprar um rádio, por exemplo, foi motivo de grande alegria para todos, que se reuniam para ouvir músicas sertanejas antigas.
Depois de muitos anos vivendo na roça, a família decidiu tentar a vida na cidade de Montes Claros. A mudança foi difícil no início, pois Dona Judite não estava acostumada com a rotina urbana. Para ajudar no sustento da casa, começou a trabalhar como lavadeira, lavando roupas para outras famílias da cidade. O trabalho era pesado, mas era uma forma de garantir o sustento dos filhos.
A situação se tornou ainda mais difícil quando o marido de Dona Judite adoeceu. Ele teve úlcera que evoluiu para câncer e acabou falecendo, deixando-a viúva com vários filhos ainda pequenos — a caçula tinha apenas seis anos. Dona Judite conta que, naquele momento, sentiu medo de não conseguir criar os filhos sozinha, mas decidiu continuar trabalhando. Ela saía cedo para lavar roupas e deixava os filhos em casa, contando com a ajuda das filhas mais velhas, especialmente Adriana, que ajudava a cuidar dos irmãos.
Algum tempo depois, a família conseguiu receber o benefício da pensão do marido, o que trouxe um pouco de alívio financeiro. Dona Judite lembra com emoção do dia em que recebeu a carta avisando sobre o pagamento. Com o primeiro dinheiro, ela foi ao centro da cidade e comprou um guarda-roupa e uma cama — móveis que guarda até hoje como lembrança daquele momento importante.
Durante a entrevista, Paula Pereira também pergunta sobre a educação de Dona Judite. Ela conta que estudou pouco, pois as oportunidades eram limitadas na zona rural. Participou do Mobral, programa de alfabetização de adultos, e aprendeu a assinar o nome e ler algumas coisas, mas a maior parte de seu aprendizado veio da experiência de vida.
Mesmo com quase 80 anos, Dona Judite continua ativa e independente. Ela conta que ainda faz as tarefas de casa, lava roupas, organiza a casa e sai sozinha para resolver compromissos no centro da cidade, ir ao banco ou buscar seu pagamento. A filha Adriana reforça que a mãe sempre foi uma mulher trabalhadora e determinada.
Outro ponto destacado na conversa é a saúde e a longevidade. Dona Judite afirma que costuma fazer exames médicos e se orgulha de não ter doenças como diabetes ou anemia. Para ela, a saúde é uma das maiores riquezas da vida.
Ao falar sobre valores e família, Dona Judite também destaca a importância do respeito dentro do casamento e afirma que sempre viveu de forma fiel ao marido, com quem teve todos os seus 12 filhos. Para ela, o trabalho e a dedicação à família sempre foram os pilares de sua vida.
Hoje, Dona Judite se orgulha de ver a família que construiu. São dezenas de descendentes entre filhos, netos e bisnetos — entre eles Maria dos Santos, Renildo, Vanilda, Marlene, Ana Maria, Adenilson, Edilene, Devanilson, Vanessa, Edimilson, Adriana e Fabiana, além do enteado Alcino — e todos representam, segundo ela, a maior recompensa de sua trajetória.
Ao final da entrevista conduzida por Paula Pereira, com participação de Adriana, Dona Judite resume sua história com gratidão. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo da vida — a pobreza, o trabalho pesado, a mudança para a cidade e a perda do marido — ela afirma que viveu uma vida de luta, mas também de conquistas.
Para ela, a maior riqueza não está no dinheiro, mas na família, na saúde e na história construída ao longo dos anos. Como diz com simplicidade ao encerrar a conversa: foi uma vida difícil, mas também uma vida boa, cheia de aprendizado, fé e amor pelos filhos.


