A sociedade de Januária e de toda a região Norte de Minas amanheceu de luto com a notícia da morte da religiosa Maria Luiza de Andrade, conhecida por décadas de dedicação aos pobres, crianças carentes e pessoas em situação de vulnerabilidade social. A religiosa faleceu na madrugada da última sexta-feira (13), aos 96 anos, em Florianópolis, em Santa Catarina.
Reconhecida por sua atuação incansável na promoção humana e na assistência social, irmã Maria Luiza tornou-se uma das figuras mais respeitadas da história social e religiosa do Norte de Minas. Ao longo de mais de cinco décadas de trabalho missionário, ela construiu um legado marcado pela defesa dos excluídos, pelo cuidado com os mais necessitados e pela criação de projetos sociais que transformaram a realidade de milhares de famílias.
Entre as iniciativas mais marcantes de sua trajetória está a fundação da Associação Comunitária Pequeno Davi, entidade que se tornou referência em assistência a crianças em situação de risco social. A instituição, criada em Januária, acolheu e apoiou ao longo dos anos inúmeros meninos e meninas que enfrentavam problemas como desnutrição, abandono e pobreza extrema.
Missionária que adotou o Norte de Minas como missão de vida
Natural do Sul do Brasil, irmã Maria Luiza nasceu em Santa Catarina, mas acabou se tornando januarense de coração, após dedicar grande parte de sua vida à missão religiosa no Norte de Minas.
Ela integrou a Congregação das Irmãs da Divina Providência e chegou à cidade de Januária na década de 1960 com o objetivo de desenvolver ações pastorais e sociais junto às comunidades mais carentes da região.
A religiosa chegou ao município ao lado das missionárias Vera Ribas e Maria de Lourdes Telles dos Santos, enviadas pela congregação e conduzidas pela então superiora Madre Sabina.
O grupo desembarcou em Januária com a missão de atuar na área de evangelização e promoção social sob a jurisdição da Mitra Diocesana de Januária.
Chegada histórica à cidade
A presença das religiosas na cidade ficou registrada como um momento simbólico na história da diocese local. Em 28 de fevereiro de 1967, as missionárias foram recebidas oficialmente pelo então bispo da diocese, Dom João Batista Przklenk.
A chegada das missionárias marcou o início de uma caminhada pastoral e social que viria a impactar profundamente a realidade das comunidades mais pobres do município e das áreas rurais da região.
Na época, Januária vivia um cenário de grandes dificuldades sociais, especialmente entre famílias de baixa renda, moradores das periferias e comunidades ribeirinhas às margens do Rio São Francisco.
Foi nesse contexto que irmã Maria Luiza e suas companheiras iniciaram um trabalho que unia evangelização, assistência social e formação comunitária.
Construção de um legado social
Ao longo de décadas de atuação, irmã Maria Luiza participou da criação e desenvolvimento de diversos projetos voltados à inclusão social, à educação comunitária e ao apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.
Entre as principais iniciativas desenvolvidas pelas missionárias na região estão:
atendimento e acompanhamento a meninos em situação de rua, incluindo grupos de carregadores de malas e engraxates;
criação do SERVIR, projeto voltado à promoção social;
visitas às famílias da cidade para levantamento das condições de vida da população;
cursos de culinária, corte e costura e bordado, voltados à geração de renda;
formação de catequistas na Catedral e em diversas comunidades da diocese;
visitas missionárias às capelas do interior;
atendimento humano e espiritual a pessoas em situação de rua;
formação de lideranças comunitárias em diversas localidades da diocese;
atuação missionária junto à juventude;
implantação da Legião de Maria em comunidades locais;
criação de clubes de mães, fortalecendo a organização comunitária feminina;
fundação da Associação Comunitária Pequeno Davi;
apoio à Pastoral da Criança;
ações de promoção humana nas periferias da cidade;
implantação da Farmacinha de Remédios Caseiros Dom de Deus;
cursos de formação integral para famílias carentes;
apoio a pessoas sem moradia;
acompanhamento pastoral permanente nas comunidades;
projetos de terapias alternativas e saúde natural;
atuação junto à Pastoral dos Pescadores e Pescadores Artesanais do Rio São Francisco.
Referência de solidariedade
A atuação de irmã Maria Luiza sempre foi marcada pela simplicidade e pela dedicação aos mais vulneráveis. Para muitas famílias de Januária, ela se tornou uma espécie de mãe espiritual, conhecida pelo acolhimento, pela escuta e pelo compromisso com a dignidade humana.
Seu trabalho contribuiu para transformar a vida de inúmeras crianças e jovens que encontraram nas ações da religiosa e das demais missionárias oportunidades de cuidado, educação e inclusão social.
Legado que permanece
Com a morte de irmã Maria Luiza, a cidade de Januária perde uma de suas maiores referências religiosas e sociais. No entanto, o legado construído ao longo de décadas permanece vivo nas instituições, projetos comunitários e nas histórias de pessoas que tiveram suas vidas impactadas por sua atuação.
Para muitos moradores da região, sua memória continuará associada à defesa dos mais pobres, à promoção da solidariedade e ao compromisso com o evangelho vivido na prática cotidiana.
A religiosa agora se junta às demais missionárias que participaram dessa caminhada histórica e que também já faleceram, deixando uma marca profunda na trajetória social e espiritual do povo barranqueiro.
Na lembrança da comunidade, irmã Maria Luiza seguirá sendo lembrada como uma verdadeira missionária da solidariedade e da fé, cuja vida foi inteiramente dedicada ao serviço ao próximo.


