Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Há entrevistas que terminam quando o gravador é desligado. Outras permanecem ecoando por muito tempo dentro de quem ouviu. A conversa que tive com Fátima Turano pertence, sem dúvida, à segunda categoria.
Não foi apenas um relato de vida. Foi um encontro com uma trajetória que atravessa décadas, perdas, reconstruções e conquistas — e que, ainda assim, preserva algo raro: a delicadeza.
Neste mês em que o calendário nos convida a olhar com mais atenção para as histórias das mulheres, a lembrança da entrevista com Fátima me faz pensar em quantas vidas femininas foram moldadas pelo mesmo fio invisível que costura coragem e sensibilidade.
Ao longo da conversa, Fátima percorreu memórias que poderiam facilmente endurecer qualquer pessoa. Falou da infância em Granjas Reunidas, distrito então ligado a Bocaiuva, das lembranças do pai imigrante italiano que chegou ao Brasil em meio à Segunda Guerra Mundial e encontrou no Norte de Minas um lugar para reconstruir a vida. Falou da alegria de uma infância simples, do ambiente da antiga Usina Malvina e das brincadeiras com aquele pai que misturava português e italiano nas frases.
Depois, com a serenidade de quem aprendeu a conviver com a ausência, contou sobre a perda precoce que mudou tudo.
Aos quase oito anos, recebeu a notícia que nenhuma criança deveria receber: a morte do pai, vítima de um infarto caiu enquanto trabalhava. A mensagem chegou por telégrafo — frio, direto, definitivo.
Ali começava outra história.
A mãe, professora, assumiu sozinha a responsabilidade de sustentar a família. Abriu um pensionato feminino para complementar a renda. A casa passou a abrigar jovens vindas do interior para estudar em Montes Claros. A menina que antes vivia em um cenário de relativa estabilidade passou a aprender cedo sobre responsabilidade, economia e trabalho.
Mas talvez tenha sido ali que a educação deixou de ser apenas escola para se tornar destino.
Enquanto falava sobre esse período, Fátima não dramatizava. Não havia ressentimento na voz. Apenas memória — e uma certa gratidão silenciosa por tudo o que veio depois.
Essa serenidade me chamou atenção desde os primeiros minutos da entrevista.
Porque a história que ela conta é feita de batalhas. Muitas batalhas.
A estudante que seguiu para Belo Horizonte e se formou em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais tornou-se professora, supervisora escolar e, mais tarde, fundadora de uma instituição de ensino que marcaria profundamente a educação privada em Montes Claros.
Começou pequena. Começou com 79 alunos.
Vieram as dificuldades financeiras, os conflitos institucionais, a saída de profissionais que fundaram uma escola concorrente. Veio a decisão ousada de comprar um terreno no Ibituruna quando a região ainda era pouco urbanizada. Vieram obras pagas parceladamente, cada sala construída com recursos reinvestidos e uma fé persistente de que a educação poderia florescer ali.
Vieram também as marcas de um tempo em que ser mulher separada significava enfrentar olhares, comentários e julgamentos.
Fátima não ignorou esses episódios durante a entrevista. Mas também não os transformou em amargura.
E foi nesse ponto que percebi algo que talvez seja difícil explicar apenas com dados ou cronologias.
Ao longo da vida, ela precisou desenvolver uma energia quase masculina para sobreviver e construir o que construiu. Liderar equipes. Tomar decisões financeiras difíceis. Enfrentar preconceitos. Negociar, recomeçar, insistir.
Tudo isso exige uma força que o mundo historicamente ensinou às mulheres a esconder — ou a carregar em silêncio.
Mas, curiosamente, mesmo narrando fatos tão duros, Fátima nunca perdeu algo essencial: a doçura.
Sua maneira de falar é calma. A voz não se eleva. Os gestos são suaves. Há uma simplicidade no trato com as pessoas que revela mais sobre sua essência do que qualquer currículo poderia dizer.
É como se a vida tivesse exigido dela toda a força possível — mas não tivesse conseguido roubar sua feminilidade.
E isso, em tempos tão apressados e ásperos, me parece uma forma poderosa de resistência.
Porque muitas mulheres aprendem a endurecer para sobreviver. Outras aprendem a lutar sem perder a delicadeza.
Fátima pertence a esse segundo grupo.
Talvez seja por isso que sua história ultrapassa o limite de uma biografia individual. Ela se conecta com a trajetória de tantas mulheres brasileiras que, silenciosamente, sustentaram famílias, construíram instituições, educaram gerações e ainda assim continuaram oferecendo gentileza ao mundo.
Ao ouvir Fátima relembrar cada etapa — da menina que perdeu o pai à educadora que ergueu uma instituição de ensino, expandiu projetos para o ensino superior e enfrentou até mesmo a reinvenção durante a pandemia — tive a sensação de estar diante de um retrato coletivo.
Um retrato de resistência feminina.
Hoje, em uma fase mais tranquila da vida, ela se dedica à escrita, à cultura e a gestos solidários feitos longe dos holofotes. A instituição que construiu atravessou transformações, foi vendida em meio à turbulência econômica da pandemia, e esse ciclo se encerrou.
Mas o legado permanece.
Permanece nas salas de aula que ajudou a construir.
Nos profissionais que formou.
Nos estudantes que passaram por seus corredores e levaram adiante o conhecimento recebido.
E permanece, sobretudo, na maneira como ela escolheu contar sua própria história: sem rancor, sem ostentação, apenas com a serenidade de quem sabe que a vida é feita de fases — e que cada uma delas deixa marcas que ajudam a iluminar o caminho de quem vem depois.
Quando me despedi de Fátima Turano, fiquei com a impressão de que havia acabado de ouvir algo maior que uma entrevista.
Era um testemunho.
Um daqueles que lembram que coragem e delicadeza não são opostos.
Às vezes, são exatamente a mesma coisa.
E talvez seja isso que torne histórias como a dela tão necessárias de serem contadas — especialmente neste mês em que celebramos as mulheres.
Porque algumas trajetórias não apenas inspiram.
Elas ensinam.


