FATO, IMPACTO E SIMPATIA - Rede Gazeta de Comunicação

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FATO, IMPACTO E SIMPATIA

Adelaide Valle Pires

Estava assistindo a uma série chamada Pinóquio e uma cena me chamou atenção.

Uma repórter, conhecida como “bam-bam-bam”, iria dar uma palestra. Antes mesmo de começar, reencontra um rapaz que anos atrás a havia confrontado como um lobo furioso. Naquela época, ela disse:

— Você não sabe nada sobre ser repórter.

Ele respondeu:

— Tudo bem, vou aprender. E quando nos reencontrarmos, voltarei uivando.

Anos depois, já repórter, ele aparece novamente. Ela, provocadora, pergunta:

— E aí… cadê o lobo uivando?

Ele responde com tranquilidade:

— Hoje não estou aqui para aprender.

Logo em seguida, ela inicia a apresentação com o tema “Fato ou Impacto?”.

Conta que toda notícia nasce de um fato, mas só ganha atenção quando encontra impacto. Para explicar, lembra de uma situação simples: disse certa vez a um repórter que preferia homens altos. A manchete poderia ter sido neutra — “Jornalista tem preferência por homens altos”. Mas outra versão chamaria muito mais atenção: “Jornalista não gosta de homens baixos”.

O fato era o mesmo. O impacto mudava tudo.

Ela levou a platéia a perceber que as pessoas tendem a olhar primeiro para aquilo que provoca reação — muitas vezes mais para o que insulta do que para o que elogia. E, de repente, uma voz surge da platéia — justamente a filha da palestrante, portadora da síndrome de Pinóquio — trazendo um alerta silencioso: chamar atenção não pode significar distorcer o sabor do que é verdadeiro.

Uma notícia não vive apenas da verdade crua. Precisa de tempero para alcançar quem escuta. Mas quando o tempero altera o sabor dos ingredientes, deixa de ser informação e vira ruído.

Talvez comunicar seja exatamente encontrar esse equilíbrio delicado: verdade como ingrediente, impacto como tempero e simpatia como medida. Não para agradar superficialmente, mas para que aquilo que é dito realmente chegue ao outro sem perder a essência.

Porque, no fim, não é a manchete que define o valor da comunicação — é a coerência entre o que aconteceu, a forma como foi contado e o cuidado com quem vai receber.