Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Em tempos marcados pela pressa, pela cultura do resultado imediato e pela constante necessidade de respostas rápidas, histórias pautadas pela constância e pela construção gradual assumem um valor ainda mais significativo. A trajetória de Mauro Cesar Ramires Soares, bancário há 33 anos e atual presidente da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), oferece mais do que um relato pessoal — propõe uma reflexão sobre liderança, compromisso e pertencimento.

Mauro deixou a cidade ainda na primeira infância, construindo em Janaúba as memórias que moldariam sua identidade. Ao relembrar aquele período, surge uma narrativa comum a muitos brasileiros, mas cada vez mais distante das novas gerações: a infância vivida nas ruas, os campos de terra, a convivência espontânea, a liberdade simples e genuína. Não se trata apenas de nostalgia. Trata-se da formação de vínculos humanos e valores que resistem ao tempo.
Criado em uma família numerosa, entre 11 irmãos, Mauro carrega consigo uma herança que não se mede em bens materiais, mas em princípios. Honestidade, respeito, responsabilidade — valores transmitidos sob a firmeza de um pai comerciante e a dedicação silenciosa de uma mãe que conduzia o cotidiano doméstico. Em um mundo frequentemente dominado pela relativização ética, esse legado revela-se não apenas relevante, mas essencial.
Curiosamente, sua escolha profissional não foi fruto de um plano cuidadosamente traçado. Como tantos jovens, Mauro cogitou caminhos distintos — entre eles, a carreira militar. Mas foi em São Paulo, para onde migrou em busca de oportunidades, que o acaso encontrou a preparação. O concurso para o Banco do Brasil, inicialmente apenas uma possibilidade, transformou-se em vocação. Mais de três décadas depois, a estabilidade profissional tornou-se parte de uma história maior.
Montes Claros, cidade que o acolheu em 1998, consolidou-se como espaço de vida, trabalho e construção social. E foi justamente ali que a AABB deixou de ser apenas um clube recreativo para se tornar extensão de sua própria trajetória. Ao tornar-se sócio, Mauro não buscava protagonismo. Buscava convivência, esporte, integração — elementos que, com o tempo, evoluiriam para responsabilidade administrativa.
A entrada na gestão da AABB, em 2011, simboliza algo frequentemente negligenciado: o amadurecimento da liderança. Não houve atalhos, não houve conquistas instantâneas. Houve disputas, derrotas apertadas, processos eleitorais desafiadores. Houve, sobretudo, perseverança.
A continuidade administrativa, frequentemente subestimada em ambientes institucionais, emerge como um dos pilares centrais da transformação vivida pelo clube. Mauro destaca, com naturalidade, a parceria construída ao longo dos anos com outros dirigentes, em uma engrenagem marcada mais pela colaboração do que pela vaidade. A alternância de funções dentro de um mesmo grupo reforça uma verdade simples, porém poderosa: instituições sólidas não se constroem com rupturas constantes, mas com visão compartilhada.
Hoje, a AABB apresenta uma dimensão que ultrapassa o conceito tradicional de clube social. Com cerca de 4.200 associados e aproximadamente 14 mil dependentes, sua estrutura atende a um público equivalente ao de uma pequena cidade. Administrar esse universo exige mais do que habilidade técnica. Exige planejamento, responsabilidade fiscal, sensibilidade social e compromisso permanente com o coletivo.
As recentes melhorias estruturais não representam apenas investimentos físicos. Representam escolhas estratégicas. Quadras cobertas, modernização de espaços esportivos, ampliação de áreas recreativas, fortalecimento da sustentabilidade energética — cada obra traduz uma visão de futuro. Mais do que estética ou conforto, trata-se de funcionalidade, eficiência e longevidade institucional.
Nesse contexto, o Carnaval surge como símbolo de tradição e adaptação. A festa, consolidada no calendário social do clube, demonstra que inovação e identidade podem coexistir. A realização de um pré-Carnaval com uma banda de projeção nacional, como o Terra Samba, não representa mera atração festiva. Representa capacidade de gestão, leitura de cenário e busca por alternativas economicamente viáveis.
Mas talvez o aspecto mais revelador da entrevista não esteja nos números, nas obras ou nos eventos. Reside na percepção de pertencimento. Ao afirmar que nunca foi associado de outro clube, Mauro evidencia algo que transcende a relação institucional. A AABB não é apenas um espaço frequentado. É um ambiente vivido.
Em uma sociedade cada vez mais marcada pela fragmentação dos vínculos e pela superficialidade das conexões, o sentimento de pertencimento assume papel central. Clubes, associações e espaços coletivos deixam de ser apenas estruturas recreativas para se tornarem territórios de convivência, identidade e saúde social.
Ao se definir como uma pessoa simples e tranquila, Mauro desconstrói, ainda que de forma involuntária, um estereótipo recorrente. Liderança não é sinônimo de exposição constante ou retórica grandiosa. Liderança, muitas vezes, é exercício silencioso de responsabilidade.
Esse equilíbrio entre vida pessoal e responsabilidade institucional também encontra sustentação no ambiente familiar construído ao longo dos anos. Mauro nunca se casou oficialmente, mas vive há mais de 15 anos com sua companheira, Cibelle, também bancária. Ao mencioná-la como seu grande apoio, ele evidencia um elemento frequentemente invisível nas trajetórias públicas: a importância das relações que sustentam decisões, oferecem estabilidade emocional e fortalecem a confiança necessária ao exercício da liderança. Incentivo, parceria e presença constante formam, nesse caso, uma base silenciosa, porém essencial.
Sua mensagem aos jovens reforça um contraponto necessário ao imediatismo contemporâneo. A ideia de que nada consistente se constrói de um dia para o outro resgata uma lógica frequentemente esquecida: crescimento é processo, não evento. Conquistas duradouras exigem tempo, esforço e continuidade.
Em última análise, histórias como essa nos convidam a ampliar o olhar. Para além das trajetórias individuais, emerge uma reflexão sobre instituições, comunidades e valores coletivos. A solidez de um clube não se mede apenas por suas instalações, mas pela capacidade de manter-se relevante, sustentável e conectado às necessidades de seus associados.
A AABB, ao longo dos anos, transformou-se não apenas fisicamente, mas conceitualmente. E essa transformação não é fruto de circunstâncias isoladas. É resultado de gestão, planejamento e compromisso acumulado.
Num cenário em que tantas instituições enfrentam desafios de credibilidade, sustentabilidade e engajamento, exemplos de continuidade administrativa, responsabilidade e visão de longo prazo merecem mais do que reconhecimento. Merecem reflexão.
Porque, no fim, as estruturas mais sólidas continuam sendo aquelas construídas no tempo, sustentadas pelo coletivo e guiadas por valores que resistem às pressões do imediatismo.
E talvez seja exatamente disso que mais precisamos.


