Memória e curiosidade não são armazém - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

Memória e curiosidade não são armazém

Adelaide Valle Pires

Autora

Assisti a uma série lá no final de 2021.

O título estava em inglês.

Hoje voltei a ela. O título agora está em português.

A série é a mesma, mas eu com certeza não.

Naquela época, a idéia de curadoria ficou rondando. Cuidar. Escolher. Dar sentido. Foi dali que nasceu a coragem de abrir o arquivo do meu pai e olhar para ele não como passado, mas como conversa.

Organizei. Selecionei. Montei uma exposição para o centenário dele. Fiz um fotolivro. Fui entrando e saindo daquele material como na música Encontros e despedidas, da Maria Rita. Não foi só homenagem. Foi encontro e desapegos.

Cada retorno é outra leitura.

Outro sentir.

Outro entendimento.

Hoje vejo com mais clareza. Aquilo já era um jeito meu de viver a vida.

Agora, anos depois, ao assistir a mesma série, em outro momento da vida, entendi algo simples: a gente precisa revisitar o que sabe. Voltar a livros já lidos. Rever filmes. Retomar idéias. Porque o conteúdo pode ser o mesmo, mas quem olha mudou.

Lembrei do caderno antigo de anotações do meu pai, desses de pesquisas genealógicas. Logo na primeira folha, uma frase do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas:

“Guarda as tuas cartas da juventude.”

Agora,  outra frase me chamou atenção: nós não vamos nos colocar no armazém, vamos continuar olhando um para o outro e fazer novas descobertas.

Parei. Pensei em memórias e em descobertas.

Eu guardo memórias, sim, mas não como quem tranca tudo num armazém fechado. Memória abafada demais pode pesar, pode doer, pode virar coisa difícil de lidar.

Prefiro visitar minhas memórias. Olhar com calma, conversar com elas, perguntar o que ainda importa. Pergunto como quem puxa uma cadeira e senta junto: o que eu pensava quando ainda não sabia  sobre…?  O que me movia antes das respostas prontas?

Então percebi que memória e curiosidade caminham juntas.

A memória me lembra de onde venho.

A curiosidade me provoca a descobrir quem sou e para onde vou.

Descobri que a curiosidade é uma chave poderosa. Ela aproxima, cria conversa, amplia o mundo. E aprendi também que curiosidade sem atenção machuca.

Quem se fecha, silencia.

Quem olha com atenção, se comunica.

Quando meu netinho me disse:

“Quero saber como é lá dentro.”

Entendi que o olhar curioso abre caminhos.

A comunicação começa no olhar da pergunta.

Aprender, para mim, é isso.

É poder ir para o lado de lá sem medo.

Mas voltar quando quiser.

E, o melhor, voltar diferente.

Voltar sabendo que ficar também é escolha.

Porque o importante mesmo é saber que sempre existe um caminho de volta.