Sindicato denuncia distorções salariais, defasagem superior a 80% e alerta para precarização do ensino superior no Norte de Minas
Professores doutores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) estariam recebendo salários inferiores à titulação que possuem, em valores equivalentes aos pagos a docentes com título de mestre. Da mesma forma, professores mestres estariam sendo remunerados como especialistas. A denúncia é da Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Montes Claros (Adunimontes), que aponta uma série de distorções na política de remuneração da instituição e alerta para um cenário de precarização do trabalho docente.
Segundo o sindicato, parte significativa dos professores contratados no último processo seletivo não tem a titulação máxima reconhecida para fins salariais, o que resultaria em perdas que ultrapassam 30% da remuneração a que teriam direito. O problema se agrava diante do fato de que a Unimontes não realiza concurso público para o cargo de professor há mais de uma década, ampliando a dependência de contratos temporários e fragilizando a carreira docente.
De acordo com o presidente da Adunimontes, Wesley Helker Felício da Silva, a defasagem salarial acumulada na universidade supera 82%, o que compromete não apenas as condições de trabalho dos professores, mas também a própria missão institucional da Unimontes. “O último processo seletivo para contratação de professores representou um verdadeiro golpe de misericórdia. Parte dos docentes teve mais de 30% da remuneração subtraída, simplesmente porque a universidade deixou de considerar a titulação máxima desses profissionais”, afirma.
Contradição institucional
Para o presidente do sindicato, há uma contradição evidente na postura da universidade e do governo estadual. Segundo ele, a Unimontes se beneficia da elevada qualificação de seus docentes — muitos com doutorado e produção científica reconhecida — para alcançar bons resultados nas avaliações do Ministério da Educação (MEC), mas ignora essa mesma titulação no momento de definir os salários.
“É incoerente utilizar a formação dos professores como vitrine institucional e, ao mesmo tempo, desvalorizá-los financeiramente. Isso não apenas desestimula o trabalho acadêmico, como compromete a credibilidade da política educacional do Estado”, avalia Wesley. Na visão da Adunimontes, essa prática se assemelha ao modelo adotado por instituições privadas de ensino superior, que frequentemente se valem da titulação dos docentes para melhorar indicadores de avaliação, sem necessariamente remunerá-los de forma compatível.
O sindicato associa esse cenário ao que chama de “projeto privatista” do governo Romeu Zema, que, segundo a entidade, vem sendo implementado de forma gradual nas universidades estaduais mineiras, com redução de investimentos, arrocho salarial e enfraquecimento da carreira pública.
Fuga de cérebros e impactos regionais
Outro ponto destacado pela Adunimontes é o risco crescente de evasão de profissionais altamente qualificados. “Sem concursos públicos e com salários defasados, a tendência é a universidade sofrer uma fuga constante de cérebros. Pesquisadores e professores qualificados acabam deixando a região em busca de outras universidades públicas que reconheçam e valorizem sua formação e seu trabalho”, alerta Wesley.
A saída desses profissionais, segundo o sindicato, não afeta apenas a comunidade acadêmica, mas compromete diretamente o desenvolvimento regional. A Unimontes desempenha papel estratégico no Norte de Minas, sendo responsável pela formação de profissionais, produção de conhecimento científico e execução de projetos de extensão que impactam diretamente a população.
Pressão por novos modelos de contratação
Para a entidade sindical, o cenário pode se agravar ainda mais. Wesley Helker Felício da Silva afirma que há pressão por parte do governo estadual e da Reitoria para que um eventual concurso público seja realizado nos moldes do último processo seletivo. Isso incluiria o aumento da carga horária dos professores efetivos, sem a correspondente valorização salarial.
Além disso, o sindicato denuncia que há mais de 10 anos não ocorre o pagamento regular das Dedicações Exclusivas, regime que pressupõe dedicação integral do docente à universidade, com restrições a outras atividades profissionais. A ausência desse pagamento, segundo a Adunimontes, representa mais um elemento de precarização das condições de trabalho.
Reflexos no ensino, na pesquisa e na extensão
A Adunimontes avalia que o cenário atual configura um “desastre anunciado” não apenas para os professores, mas para toda a comunidade acadêmica. A desvalorização da carreira docente, somada à falta de concursos e à sobrecarga de trabalho, ameaça diretamente a qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão universitária.
“Uma universidade forte depende de professores valorizados, com estabilidade, condições dignas de trabalho e reconhecimento de sua qualificação. Sem isso, todo o sistema entra em colapso”, conclui o presidente do sindicato.
A reportagem procurou a Unimontes para comentar as denúncias apresentadas pela Adunimontes. Até o fechamento desta matéria, não houve manifestação oficial da instituição.


