João pedro Issa
Estudante de ciências sociais
Jesus ao rejeitar certas práticas dos rabinos e Mohamed ao rejeitar certos hábitos cristãos, ambos sem maldizer a respectiva religião, apenas algumas de suas manifestações, Mateus 5:17-18 “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir ” mostram que embora uma religião seja intrinsicamente Ortodoxa, existe um certo setor dela que é humano e não estritamente divino. A influência divina só é total nas escrituras, que por sinal, vai ser das escrituras que vão vir a fonte primordial da metafisica. Existe assim, uma margem para que se possa manifestar a influência divina, essa margem vai vir por meio da etnia, cultura, personagens e fatos históricos.
O exemplo mais latente da margem humanas nas religiões, são suas cisões: catolicismo latino e ortodoxia oriental, sunismo e xiismo, budismo zen e tibetano. O mais irônico, é que nos textos mais antigos, existem argumentos que sustentam ambos os pontos de cisões, os textos podem sustentar ora a igreja Latina, ora a Ortodoxa, ora o sunismo ora o xiismo. Os Padres do deserto podem ser lidos tanto em chave latina (filioque implícito) quanto oriental (prioridade do Pai). E se observamos as cisões, também podemos perceber as diferenças culturais que as manifestam: O Cristianismo ortodoxo é oriental e mais frio, o Latino é quente e imagético, o xiismo é mais político e jurista, influenciado pela herança persa e pela ênfase na linhagem familiar de Ali como imames infalíveis e guias espirituais, o que o torna mais hierárquico e místico em vertentes como o ismaelismo, enquanto o sunismo é mais consensual e jurídico, priorizando a eleição comunitária do califa e a sunna coletiva, refletindo o tribalismo árabe igualitário. EExiste um choque civilizacional que acaba sobrepondo a dimensão estritamente religiosa, é a margem humana pura e simples.
As Heresias, não entram propriamente na margem humana, mas no desvio intrínseco, a margem humana se situa em um terreno onde se busca uma comunhão para adorar o Divino, se ela peca em um ponto, não aceita uma determinada diferença ou é insuficiente na dialética e na filosofia não é por maldade, mas por simplicidade, a heresia por outro lado, peca pelo excesso de sistematização do erro.
Os vários “Mistérios” que muitas teologias afirmam, na maior parte das vezes são expressões da insuficiência metafisica para lidar com aquilo que é antinômico, de modo que o mistério se torna uma máscara para encobrir uma contradição teológica, a teologia se torna então uma espécie de metafisica sentimental, onde para se aceitar o dito mistério, é necessário “pensar piedosamente”. No cristianismo isso é mais evidente, o cristão ainda que monoteísta, tem vários objetos de culto: A Eucaristia, o sagrado coração, Deus, Cristo…. Fragmentando a Unidade do Absoluto em devoções paralelas. Por outro lado, essa piedade gerada pela teologia, faz o fiel ter uma atitude de desapego, onde se substitui o pensamento pela virtude e a verdade pelo heroísmo. Se perde um aspecto metafisico, mas se ganha virilidade religiosa, a casca exterior fica mais forte. A margem humana é dispensável do ponto de vista metafisico e contemplativo mais crucial em seu aspecto social e político.
O testemunho islâmico “Não a outra divindade exceto Allah” tem um sentido metafisico do discernimento do Real e do ilusório, do absoluto e do relativo, exterior mundano e Interior divino, onde o sujeito não é o ego, mas o intelecto puro, purificado pelo caminho de Deus. E a segunda parte do testemunho “E Mohamed é seu mensageiro” tem um sentido da casca exterior, do exotérico. Mohamed é o receptáculo histórico e temporal para a mensagem primordial. O relativo enquanto manifestação do Absoluto não é outra coisa senão o absoluto. A criação enquanto tal pode estar separada do absoluto, mas por outro lado é um prolongamento dele, no Corão Allah é “O Aparente” (Ezh-Zhahir) e tambem “O Oculto” (El-Bãtin)
No Cristianismo existe um par para isso: O Filho de Deus, é Deus. O homem que é relativo, se identifica com Deus, que é absoluto. Fica implícito que é possível alcançar o absoluto por meio do relativo, daí a doutrina do Verbo “Deus se fez homem para que o homem se faça Deus”. Não é o homem se tornar Deus, até porque nenhuma grande tradição crê nisso, mas é situar o homem num eixo onde ele permanece homem, apesar da realidade do absoluto que o cerca.
Toda religião é uma totalidade, mas ela só consegue atingir dimensões mais intramundanas nessa margem humana que estamos tratando não pela é a metafisica, mística e a contemplação que atinge os corações dos fiéis, mas os Dogmas, especulações e a moralidade. As contradições podem ser vias de acesso a verdade, apesar de serem contradições, pois como fazem parte da totalidade religiosa, é um dos aspectos da verdade e uma das vias de acesso a ela.
A margem humana não se manifesta apenas na doutrina, mas também em certas práticas excessivas consagradas ou toleradas de boa vontade pela tradição, um exemplo latente foram as práticas rabínicas estigmatizadas por Jesus. Essas práticas são toleradas e consagradas pele tradição pelo seu esforço de manter a mensagem primordial, é o “Exagero corretivo” de que já tratamos anteriormente. Esse excesso é próprio da prática religiosa, é menos visto nas escrituras sagradas, que contém algumas imperfeições providenciais ou na arte sagrada, onde Anjos e demônios dividem espaço na tela, mas tudo por um motivo: pedagogia do Absoluto. O ensinamento o que vem pela disciplina antecipada.
Deus cede essa margem humana para a sua revelação pois sabe a priori que existem variados tipos e arquétipos humanos, alguns vão adorá-lo pela disciplina e outros pela contemplação.
Quando um moderno diz que a diversidade religiosa são apenas diferenças de estilo da mensagem de Deus, pode ser confortável para uma explicação imediata, mas não explica por que essas mensagens se manifestam como afirmações mutuamente incompatíveis. Não é suficiente, é necessário aceitar que as manifestações têm de ser necessariamente diferentes e que não poderia ser de outra forma. Esse com certeza é o maior mistério da margem humana que estamos tratando.
Deus também cede a margem humana de maneira muito explicita em alguns casos, como nas Epistolas de São Paulo, e o próprio apostolo reconhece que é ele mesmo que está falando nesses casos “Quantos as virgens, não tenho um mandamento do senhor, mas dou um conselho….” (1 Cor 7:25) “Aos outros, digo eu, não o Senhor” (1 Cor 7:12); mas não anula a inspiração divina direta “Quanto as pessoas casadas, ordeno, não eu, mas o Senhor” (1 Cor 7:10) aqui já é Deus falando através do apostolo por mensagem direta e nas primeiras citações o Apostolo falando por ele mesmo com o aval de Deus.


