Paula Pereira
Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing
A entrevista com Luís de Matos Miranda é mais do que um registro biográfico: é um mergulho sensível na história da música brasileira vista a partir do olhar de quem a viveu, sentiu e atravessou com o corpo e a alma. Nascido em Montes Claros, em 1950, Luís não fala apenas como espectador de transformações culturais, mas como alguém que esteve dentro delas, acompanhando cada virada de estilo, cada ruptura estética e cada nova sonoridade que marcou gerações.
Sua fala carrega a simplicidade de quem viveu uma infância feliz, mesmo em tempos de escassez material, e a lucidez de quem entende a música como elemento estruturante da vida. Ao lembrar da música caipira, da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da explosão dos Beatles, Luís nos recorda que a música sempre foi campo de disputa, inovação e rebeldia — especialmente nos anos 1960, quando a guitarra elétrica simbolizava não apenas um som novo, mas uma mudança de mentalidade. A resistência inicial, segundo ele, foi vencida pela força do tempo e pelo espírito inquieto da juventude.
Há também, em seu relato, um profundo respeito pelas raízes. A influência familiar, o gosto herdado do pai, os nomes que passaram pela própria casa e pela memória afetiva revelam que a música não nasce isolada: ela se constrói em ambientes, relações e afetos. Quando Luís fala dos discos de vinil guardados com carinho, fala também da preservação da memória — algo cada vez mais raro em tempos de consumo rápido e descartável.
Sua trajetória como cantor de banda, viajante pelo Brasil e, depois, músico ligado à igreja por quatro décadas, revela um entendimento da música como missão. Para ele, tocar não era apenas performance, mas cuidado, acolhimento e espiritualidade. A interrupção forçada pela doença não aparece como lamento, mas como aceitação serena de quem reconhece o ciclo da vida e se sente pleno pelo que pôde viver.
Ao comentar os artistas de Montes Claros e da região, Luís resgata nomes, histórias e talentos que ajudam a contar uma narrativa cultural muitas vezes esquecida fora dos grandes centros. Seu olhar crítico, mas respeitoso, sobre a música contemporânea não soa como saudosismo vazio, e sim como o lamento de quem sente falta de profundidade, identidade e diálogo emocional na produção atual.
No fim, a entrevista deixa uma mensagem clara: a música, quando verdadeira, atravessa o tempo, cura, forma caráter e constrói sentido. A história de Luís de Matos Miranda é, portanto, também a história de uma geração que encontrou na música não apenas entretenimento, mas um modo de existir. Ouvi-lo é um convite a desacelerar, escutar com mais atenção e reconhecer que, entre notas e silêncios, também se constrói a memória de um povo.
Sobre a música “Bendito, Bendito”, Luís de Matos Miranda faz uma ressalva e admite não se lembrar com precisão da autoria. Em vez disso, ele prefere destacar o cantor Tino Gomes, um dos grandes artistas de Montes Claros. Segundo Luís, Tino era conhecido por levar alegria ao público por meio de suas canções, marcando época e deixando uma contribuição significativa para a história musical da cidade.


