Adelaide Valle Pires
Psicóloga por formação, arqueóloga de coração
Estava visitando minhas redes sociais quando me deparei com a seguinte postagem:
“No Brasil, rico que rouba não é ladrão, é cleptomaníaco.”
O calor insuportável das nossas tardes quentes me fez abrir o meu leque Charme.
Captura.
A frase ficou ecoando. Cleptomania, do ponto de vista clínico, é um transtorno do controle dos impulsos. Um nome que explica, mas que também pode esconder.
Quando chamamos um desvio de doença, falamos em diagnóstico.
Quando chamamos de falha de caráter, falamos em sentença.
Hábito.
O problema começa quando o termo vira álibi — quando o vocabulário da saúde mental passa a suavizar a responsabilidade moral.
Agir.
Diagnóstico explica.
Sentença responsabiliza.
E então me chegam aos ouvidos frases conhecidas:
“Não tenho nada a ver com isso. Ela — ou ele — é cleptomaníaco.”
Reflexão.
Eu me salvo. Você adoece.
Ter uma doença não elimina a dimensão do caráter.
E ter caráter não imuniza ninguém contra adoecer.
O risco está em usar a doença para apagar escolhas, terceirizar responsabilidades, anestesiar a consciência.
Mudança.
Talvez o ponto não seja escolher um rótulo mais confortável,
mas perceber quando o nome dado ajuda a cuidar
ou apenas serve para aliviar a consciência.
Expansão.
Então, afinal: até quando é doença e quando vira falha de caráter?
É doença quando há sofrimento, perda de controle e ausência de ganho.
É falha de caráter quando há cálculo, repetição e benefício sustentado.
Às vezes, trocar o nome do ato muda menos a realidade
do que a coragem de encará-la.


