Adelaide Valle Pires
Psicóloga por formação, arqueóloga de coração
Conheci há muitos anos uma dinâmica chamada O Presente.
Ela costuma aparecer no fim do ano, em confraternizações de trabalho.
Um presente passa de mão em mão, embrulhado em muitas camadas de papel, acompanhado de frases prontas: o mais alegre, o mais inteligente, o mais solidário…
Já usei várias vezes.
Gosto dela.
Ela cumpre bem o papel de descontrair, integrar, encerrar ciclos.
Mas, como quase tudo na vida, comecei a sentir vontade de conversar com ela.
Perguntar: e se esse presente parasse de correr?
E se, em vez de passar rápido de mão em mão, ele nos convidasse a ficar um pouco?
Foi assim que pensei numa adaptação para o Natal em família.
Porque família não funciona no ritmo do escritório.
Tem criança que interrompe, adulto que se emociona, idoso que observa em silêncio.
Família precisa de tempo, de riso frouxo, de perguntas simples.
Troquei o presente apressado por uma árvore.
Na árvore, mini-livros.
Na capa, palavras do cotidiano: alegre, bagunceiro, carinhoso, desligado, paciente, charmoso…
Nada muito sério.
Nada muito solene.
Coisas de casa.
Em vez de dizer “passe o presente”, a pergunta mudou:
Como você me vê?
A expectativa é simples — e bonita.
Que as pessoas comecem a se olhar mais devagar.
Que uma criança possa dizer a um adulto: “acho você divertido”.
Que um adulto possa dizer a uma criança: “vejo você cuidadoso”.
Sem hierarquia.
Gente descobrindo que é vista de um jeito que talvez nunca tenha parado para escutar.
O verdadeiro movimento não está em ganhar algo.
Ele acontece quando cada um lê o seu livrinho não como prêmio,
mas como convite à reflexão.
Ali, o presente deixa de ser objeto.
Deixa de ser uma caixa de bombom.
E passa a ser encontro, presença, partilha, luz interior.
No final, como quase sempre acontece, alguém ficará com o presente.
Mas junto dele vem um convite silencioso:
e se esse presente não ficasse só comigo?
Não por obrigação.
Por vontade.
Porque talvez seja isso que o Natal nos lembre, ano após ano:
a felicidade não se sustenta sozinha.
O presente mais bonito não é o que a gente guarda,
é o que a gente reparte depois de se reconhecer no outro.
E assim, aquela dinâmica que nasceu corporativa
pode ganhar cheiro de casa.
Menos embrulho.
Mais encontro.


