João pedro Issa
Estudante de Ciências Sociais
A capital mineira, acostumada ao comércio, aos bares e à fábrica da Fiat, viu na noite de 10 de dezembro um atropelamento no seu bar maior. Na verdade, no mais grandioso de seus bares: o Mineirão. O gigante de concreto e aço, palco de tantas dores e de glórias, recebeu quase 60 mil celestes, uma muralha azul que prometia engolir o visitante. Apesar do Cruzeiro ter colocado 59 mil torcedores na sua fortaleza, durante os 90 minutos de jogo se podia ouvir mais claramente os 3 mil da Fiel corintiana. Ora, nada mais brasileiro que isso: o bar lotado pelo dono da casa, mas a conversa alta vindo da mesa do fundo do forasteiro.
Há algo nessa cena que ultrapassa o futebol e toca uma constante da vida social brasileira: a ilusão de que o dono da casa controla o ambiente apenas por ocupá-lo. Sérgio Buarque de Holanda já advertia que a cordialidade não elimina a disputa, apenas a disfarça. O Mineirão cheio, ruidoso e aparentemente soberano revelou o contrário: o poder simbólico não está em quem recebe, mas em quem impõe presença.
O maior dos forasteiros, Memphis Depay, fez a algazarra aos 21 minutos: selou o gol, o único da partida, um gol solitário, porém um tapa na cara do dono do bar. O celeste até que tentou usar o peso de ser o dono da casa, rondou, pressionou, trocou passes como quem pede mais uma rodada de cerveja, mas não deu, os forasteiros além de serem bons no tiro simbólico (o gol) eram bons na pancada simbólica (a defesa). O Mineirão calou, era como se o dono do bar tivesse dito “hoje é por minha conta”.
O jogo de volta, dessa vez na maior das cosmopolitas cidades brasileiras, tinha um peso ainda maior. Se Belo Horizonte tem fábrica da Fiat, boteco e o jeitinho mineiro, São Paulo tem fábrica de tudo quanto há no universo e, pior ainda: tem a arrogância de um francês por ter tudo isso. O espetáculo seria num símbolo muito importante da cidade: a arena Neo Química. O estádio que só pelo nome já carrega o poder simbólico e econômico, um estádio que tem nome de Big Pharma não é um estádio qualquer, é um mecanismo vivo de poder.
O jogo tinha um desafeto: o juiz Rodrigo José Pereira era acusado pelos corintianos de dar muitas faltas para o Cruzeiro, mas o desafeto não foi decisivo para a decisão final.
O Cruzeiro fez uma substituição muito certeira nos primeiros minutos de jogo: colocou um garoto de 19 anos ligado ao agronegócio, o Arroyo. Seu nome lembra uma commodity e sua tentativa ousada de drible da vaca logo depois de entrar fazem seu nome campestre escrever a sentença que influencia seu estilo de jogo, a ousadia e velocidade dele lembram a de um cavalo árabe. E nesse clima de campo que o Cruzeiro abriu o placar com dois gols de vantagem, ambos do menino arroz, digo Arroyo. A festa após esses gols em clima campestre era tão grande que parecia as festas de São João feitas no interior de Minas Gerais.
Porém, ambos os gols foram feitos no primeiro tempo. Deu tempo de o técnico Dorival Júnior mostrar seu temperamento explosivo quando os jogadores desceram ao vestiário, igual ele fez com o menino Ney em 2011 após sua indisciplina. E parece que a explosão do Dorival Júnior fez efeito, o Corinthians voltou para o segundo tempo como um faminto devora um prato de comida, eu mero espectador pude perceber que até os ombros dos jogadores do Cruzeiro ficaram mais encurvados após esse segundo tempo, a fome do Corinthians era tanta que Leonardo Jardim teve que tirar o menino arroz para não ser comido em campo.
E o inevitável aconteceu: gol do Corinthians. E pior: do Matheus Bidu. Já não bastava o Cruzeiro ter pagado a conta do forasteiro estando em casa, tomou um empate de um jogador que tem nome de cachorro. Um cachorro faminto, e como estamos falando de futebol brasileiro, provavelmente um cachorro caramelo.
Chegamos então na maior tragédia grega que existe no futebol: a decisão por pênaltis. Começou mal para o Corinthians. Mas depois ficou feio mesmo para o Cruzeiro. Tomou gol de um jogador com nome no diminutivo e seu jogador que carrega a palavra “gol” no nome errou a cobrança. E nesse clima de arroz, campo, fome e forasteiros, o Corinthians alçou a glória e o Cruzeiro ficou no meio do caminho. Podemos perceber que os nomes dos jogadores afetam a partida da mesma forma que o papa influencia o Vaticano.


