João Pedro Issa
Autor
Os símbolos e a linguagem das escrituras Sagradas podem ser de difícil compreensão para alguns, por esse motivo, a religião recorre a sistemas filosóficos e dialéticos que a antecedem. A religião recorre a esses sistemas não por serem superiores, mas para que os símbolos e as escrituras se tornem mais palatáveis ao serem incorporados na linguagem por meio da síntese feita entre a linguagem sagrada e a linguagem humana.
No entanto, podemos ter certa decepção ao lermos a obra de algum Santo cristão ou algum Wali muçulmano, por pregarem um ascetismo exagerado, e por vezes pregarem com uma aparente limitação intelectual, doutrinal ou dialética. Mas há um fator que explica tudo: o exagero corretivo.
Tanto o monge cristão quanto o Sufi ou Salaf vive numa coletividade que, pela lei cíclica, decai, que pela gravidade é jogada para baixo, de modo que a religião em seu aspecto de forma (Doutrina, liturgia, Sharia, Sacramentos) decai também, pois a forma está dentro do tempo e a coletividade dentro da forma. Cada tradição carrega seu aspecto geográfico e temporal: o Cristianismo latino, sensual e imagético, e o Islã árabe, seco e abstrato. A coletividade é regida por um líder que tem suas ambições, paixões e projetos pessoais de poder. Junta-se assim uma coletividade decaída, guiada pela agitação apaixonada do líder. O exagero corretivo dos santos ou a extrema secura dos Awlaiya nasce nesse burburinho da ciclicidade, surge como um remédio amargo e necessário.
Jesus diz: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os violentos o arrebatam” (Mateus 11:12). O Corão responde no mesmo tom: “Combatei-os até que não haja mais fitna (perseguição, idolatria) e a religião seja toda de Allah”.
Essa violência cristã não se manifestou na guerra propriamente dita, mas numa violência do corpo terrestre. O Monge cristão vende tudo, come pão e água, não se casa, dorme no chão. Não que todo cristão deva fazer isso, mas era o contraponto necessário a um catolicismo barroco cada vez mais embriagado e empanturrado dos excessos.
No Islã nem todos combateram, evidente. Mas houve sim guerra contra os idólatras para a preservação do Tawhid, mas a mensagem esotérica disso são os Wali dizendo a todos os muçulmanos “voltem ao Uno!!!”.
Pode parecer simples exigências ascéticas inúteis, que nada tem a ver com a verdade pura primordial, mas que do ponto de vista concreto da limitação humana é útil e indispensável. A função do santo não pode ser outra coisa senão essa: dar o bom exemplo. De modo que o excesso é a única linguagem compreensível a uma coletividade decaída, é o melhor dos instrumentos pedagógicos. É lamentável que essa forma de espiritualidade seja vista como simplória, porque a função que ela exerce é perfeitamente a de volta à Tradição.
Indubitavelmente, as religiões não têm a inteligência como a via espiritual comum, mas sim a via da fé e da virtude. Isso é facilmente explicado, pois não precisa a alma ser inteligente para se salvar. A fé e a virtude não produzem inteligência, mas produzem pureza intelectual. Inversamente, a inteligência não produz virtude nem fé, pois o puro intelecto possui essas duas em sua própria substância. É óbvio que do ponto de vista da piedade, a virtude supera a inteligência, mas é difícil admitir que ela faça isso em detrimento da Verdade, embora pode-se imaginar que sejam verdades que nada têm a ver com a salvação.
O monge cristão e o sufi podem não conhecer Aristóteles nem Ibn Arabi, mas conhecem Allah ou o Cristo com uma certeza que nenhum filósofo tem. O exagero deles não é ignorância, é pedagogia do Absoluto para tempos de decadência. O sacrifício do Santo é misericórdia para sua geração.


