Paula Pereira
Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing
Há momentos em que a imprensa precisa parar, respirar e olhar para si mesma — não em gesto de vaidade, mas de reconhecimento, de memória e, sobretudo, de responsabilidade com o tempo presente. O 28º Encontro da Imprensa, promovido pela Associação dos Profissionais da Imprensa Mineira (APIM), é justamente um desses instantes raros em que o jornalismo regional encontra sua própria história para compreender a caminhada que fez, reafirmar o propósito que sustenta e apontar para o futuro que deseja construir.
A divulgação dos homenageados de 2025 reacende esse sentimento. Cada nome escolhido pela APIM não é apenas um profissional destacado; é um capítulo vivo da comunicação no Norte de Minas, um fio da grande rede de narrativas que, todos os dias, conectam bairros, distritos, comunidades rurais, cidades inteiras. São pessoas que moldaram a linguagem, a sensibilidade, as referências e até o imaginário do que entendemos por imprensa regional.





Hélio Machado, por exemplo, não recebe apenas uma homenagem: recebe o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à palavra e ao povo. Em 45 anos de carreira, acompanhou — e ajudou a explicar — as transformações profundas dos jornais impressos, das rádios e das televisões de Montes Claros e região. Nos tempos do Diário de Montes Claros e do Diário do Norte, Hélio foi editor rigoroso, repórter atento, articulador de redação e testemunha de momentos que definiram rumos políticos, culturais e sociais. Na TV e no rádio, seu “Na Corda Bamba”, transmitido durante duas décadas, tornou-se companhia diária de milhares de lares. Hélio é daquelas vozes que parecem carregar a respiração da cidade, a inquietação da gente que precisa ser ouvida, a esperança de quem encontra no microfone um aliado.
Assim como ele, outro homenageado simboliza o domínio técnico e a sensibilidade artística que formam o audiovisual norte-mineiro: Kelson Fabiano Barbosa Melo. Há 35 anos, Kelson transforma bastidores de televisão em cenários de verdade, emoção e credibilidade. Dos tempos das fitas cassete à era dos equipamentos digitais, viveu cada revolução da tecnologia com disciplina, cuidado e profundo respeito pelo conteúdo. Sua trajetória, marcada por silêncio, precisão e humanidade, prova que a boa comunicação não depende apenas da voz que aparece na tela, mas do olhar atento de quem, por trás das câmeras, constrói a ponte entre informação e confiança.
A lista de homenageados se completa com nomes que ampliam ainda mais esse retrato plural da imprensa. Silvana Mameluque Mota — turismóloga, fotógrafa, servidora pública e guardiã das memórias visuais de Montes Claros — dedicou mais de três décadas a registrar o cotidiano, a cultura, os encontros e os grandes momentos da região. Suas fotos preservam a espinha dorsal da identidade montes-clarense e se tornam acervo indispensável para quem deseja compreender o que fomos e o que estamos nos tornando.
Cid Durães, com suas mil vozes, é parte inseparável do imaginário radiofônico do Norte de Minas. Criador de personagens como Chico Duca, Agamenon, Zezão e tantos outros, Cid transformou a rádio em teatro, em praça pública, em espaço de riso, crítica, leveza e afeto. Se Hélio é a voz da denúncia e da cidadania, Cid é a voz do humor que humaniza, aproxima e ilumina as manhãs de quem, há 40 anos, acompanha suas criações.
Representando outra vertente da comunicação, Rogério Souto Chaves, o eterno Roy Chaves, reafirma a força do comunicador que navega por múltiplas linguagens. Publicitário, radialista, homem de voz firme e presença afetiva, Roy construiu pontes entre o mercado, a mídia e o público, fortalecendo a comunicação como ferramenta de desenvolvimento econômico e cultural.
Em meio aos profissionais, a APIM acertadamente homenageia também uma instituição que faz parte da história social do Norte de Minas: a Fundação Dilson de Quadros Godinho, representada pelo diretor-presidente Helder Leone Alves de Carvalho. São 30 anos de compromisso com a saúde, especialmente no atendimento oncológico, enfrentando desafios, ampliando serviços e impactando famílias de toda a região. Em tempos em que o sistema público de saúde luta para se manter forte, a fundação representa um farol de esperança, cuidado e responsabilidade.
O que une todos esses nomes é mais do que o talento individual. É o entendimento de que comunicar — seja pela palavra falada, pela notícia impressa, pela imagem em movimento ou pela foto que captura o instante — é um serviço público. É, sobretudo, um ato de cidadania. A imprensa do Norte de Minas sempre se sustentou nessa convicção: a informação é um direito, e o jornalista, em sua essência, é um servidor da sociedade.
Por isso, o Encontro da Imprensa vai muito além da festa que reúne profissionais e parceiros. É ritual de pertencimento. É a celebração de um ofício que enfrenta desafios diários — da desinformação à pressão por velocidade, do enfraquecimento das redações tradicionais ao avanço de novas plataformas — sem perder de vista o compromisso com a verdade, com a ética e com o interesse público.
Nas palavras do presidente da APIM, Aldeci Xavier, o evento é “um gesto de respeito, união e reconhecimento”. E na voz firme da vice-presidente, Vanda Gonçalves, ecoa o entendimento de que o Encontro mantém viva uma tradição de 28 anos: valorizar quem constrói, com dignidade e paixão, a comunicação mineira.
Num tempo em que a informação se tornou terreno de disputa, reconhecer quem sustenta a credibilidade, o rigor e a humanidade do jornalismo é reafirmar o que realmente importa: a imprensa não existe para si mesma. Existe para a sociedade. Existe para garantir que nenhuma voz seja silenciada. Existe para iluminar caminhos.
Que a 28ª edição do Encontro da Imprensa seja, portanto, mais do que uma comemoração. Que seja um chamado. Um compromisso renovado com a história, com o presente e com o futuro da comunicação no Norte de Minas.
Porque quando a imprensa é valorizada, toda a sociedade se fortalece.


