EDITORIAL | Stephen King e o desafio do medo contemporâneo - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | Stephen King e o desafio do medo contemporâneo

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

Vou lhe dizer uma verdade que carrego comigo igual segredo de comadre: Stephen King não escreveu só histórias de terror. Ele escreveu sobre a gente. Sobre as feridas que a gente esconde, sobre os medos que a gente nem confessa, sobre os barulhos da alma que ninguém escuta — só ele. Talvez seja por isso que eu me agarro aos livros dele com um carinho que parece amizade antiga. Cada obra é como um caminho de terra batida que a gente conhece desde menino, mas que sempre revela uma trilha nova quando a gente passa de novo.

King entendeu, como poucos, que o verdadeiro medo não mora em bicho-papão, mas nas frestinhas da vida comum: na solidão, no abandono, na infância ferida, na mente que se perde quando o mundo pesa demais. Revisitar O Iluminado, It, Carrie, Misery ou o sertão fantástico de A Torre Negra é enxergar o percurso inteiro não só de um escritor gigante, mas da própria humanidade cambaleando entre sombra e lampejo.

E olha… depois de quase cinquenta anos escrevendo sem descanso, King virou uma espécie de cronista das nossas dores. Ele não só assusta — ele cutuca, disseca, analisa. É como se pegasse um espelho velho, rachado, desses que a gente guarda na varanda, e mostrasse ali tudo que mora torto dentro da gente.

O Iluminado e Misery são dois exemplos que carrego no peito. King pega fraquezas humanas — alcoolismo, obsessão, solidão — e transforma em motor de pavor. A graça é que o sobrenatural ali é só o estopim; o resto é tudo falha humana mesmo.

No Overlook, o hotel é mal-assombrado? É. Mas quem assombra de verdade é Jack Torrance, se perdendo de si até virar alguém que já não reconhece o próprio rosto. Já em Misery, o monstro nem tenta se esconder. Ele atende pelo nome de Annie Wilkes, com aquele sorriso doce e o coração feito lâmina. É terror psicológico puro, sem maquiagem.

It é, pra mim, aquela ferida que nunca cicatriza totalmente. Não é o palhaço que apavora — é o que ele representa. É a perda da inocência, é o trauma que segue a gente feito sombra, é a cidade pequena que vê tudo e não fala nada. Derry é como aquelas vilas onde todo mundo conhece todo mundo… mas ninguém abre a boca pra falar do podre. King cutuca esse silêncio com a coragem de quem sabe que o pior monstro é o que a gente finge que não existe.

Em A Espera de um Milagre, ele larga o horror sobrenatural e escancara outro tipo de medo: o da injustiça. Racismo, morte, violência estatal… King escreve com uma sensibilidade que desmonta a gente.

E A Zona Morta mostra que ele sempre andou anos à frente, discutindo autoritarismo e moralidade antes mesmo de a conversa virar pauta diária no mundo real.

King, no fundo, nunca escreveu só terror. Ele escreveu sociedade.

Com a saga da Torre Negra, ele fez sua obra mais ousada. É um livro que mistura faroeste, fantasia, filosofia e, às vezes, até um pouquinho de loucura boa. É irregular, claro — mas também é genial. King ali não quer agradar ninguém; quer desafiar. E olha, pra mim, isso já basta.

E agora o assunto do momento: Mr. Mercedes, recém-chegado à Netflix

Sem spoiler, mas com emoção: Mr. Mercedes é King mostrando que horror não precisa de fantasma nenhum pra arrepiar o peito da gente. É o terror real, aquele que mora na vida comum, no cotidiano de qualquer esquina. A guinada dele pro thriller policial mostra maturidade e coragem.

Brady Hartsfield… ah, meu Deus. É o retrato vivo da maldade que nasce pequena, dentro de casa, crescendo no abandono, no ressentimento, na solidão. King acende um alerta danado de importante sobre terrorismo doméstico, radicalização silenciosa e essa cultura esquisita que transforma psicopata em celebridade — aqui e fora da ficção. Não vou entrar na polêmica, mas que dá o que pensar, isso dá.

Do outro lado, Bill Hodges é o herói que ninguém espera. Aposentado, depressivo, meio perdido da vida. Mas é justamente porque ele é assim, humano demais, que funciona. Ele não caça o caso — é o caso que salva ele.

Em Mr. Mercedes, King prova que, ao abandonar o sobrenatural, não perde potência. Ele só troca a lente. O horror continua lá — só que mais próximo da gente do que a gente gostaria de admitir.

Por que continuo lendo King com o coração na mão

Porque cada livro dele é como olhar pra nós mesmos, mas com coragem. Seus monstros — fantásticos ou reais — são nossas falhas, medos, culpas e dores.

King escreve sobre solidão, violência, trauma, fé, injustiça, infância quebrada, desigualdade, escolhas difíceis e a eterna briga entre o que somos e o que tentamos ser.

Por isso ele continua atual, necessário e arrebatador.

Stephen King não só assusta. Ele ilumina.

E o pior — ou o melhor — é que, às vezes, a gente descobre que a luz assusta mais que a escuridão.