A repercussão em torno da decisão da meio-campista e capitã do Cruzeiro, Gaby Soares, de criar um perfil no OnlyFans reacendeu um debate antigo e persistente: o machismo estrutural que ronda o futebol feminino. A notícia, que deveria apenas informar sobre uma nova forma de interação da atleta com seus torcedores, acabou ganhando dimensões distorcidas ao reunir dois estigmas ainda profundamente enraizados — o preconceito contra plataformas digitais associadas ao conteúdo adulto e a sexualização constante do corpo feminino, sobretudo quando se trata de atletas.
Criado em 2016 para possibilitar que influenciadores monetizassem conteúdo exclusivo por meio de assinaturas, o OnlyFans se popularizou justamente por abrigar publicações sensuais e pornográficas. E, por isso, qualquer mulher que se associe à plataforma passa imediatamente por um julgamento que ignora contexto, intenção e propósito. Gaby Soares foi alvo dessa lógica equivocada. A jogadora deixou claro que seu perfil teria apenas conteúdos relacionados à rotina esportiva: treinos, bastidores, reflexões e registros do dia a dia como profissional. Ainda assim, comentários carregados de machismo tomaram conta das redes.
Entre as reações, multiplicaram-se postagens que questionavam a utilidade de assinar um perfil sem nudez, que sugeriam protestos, ironizavam a iniciativa e afirmavam que a plataforma só teria sentido se houvesse exposição corporal. A lógica recorrente reforçou o que especialistas há anos denunciam: o corpo da mulher é tratado como público e permanentemente disponível para consumo — inclusive quando ela determina que não é.
Para a jornalista e pesquisadora Rafaela Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a reação exagerada e distorcida não é coincidência. Ela aponta que o machismo aparece tanto na forma como a notícia foi veiculada quanto nas expectativas criadas em torno da atleta. “O machismo também está nessas expectativas das pessoas, duvidando que ela só vai compartilhar conteúdo da rotina, que é algo comum quando são homens. Mas é como se houvesse uma expectativa, como se o corpo dela estivesse sempre disponível para ser sexualizado”, analisa. “Quando é um atleta homem, compartilhar o dia a dia não gera tanta polêmica. E o machismo está também no fato de que ela precisa se justificar o tempo todo, reafirmando que não vai postar conteúdo adulto.”
O uso do OnlyFans por esportistas não é novidade e cresceu sobretudo durante a pandemia de COVID-19, quando vários atletas, homens e mulheres, recorreram à plataforma como alternativa para gerar renda ou financiar treinos. O que difere, no entanto, é a forma como cada grupo é tratado. Enquanto perfis masculinos são frequentemente ligados à ideia de exclusividade e bastidores do esporte, mulheres que fazem o mesmo enfrentam julgamentos moralistas e limitações impostas pelo olhar sexualizado de parte da sociedade.
No caso de Gaby, o estigma se intensifica não apenas por ela ser mulher, mas por ocupar um espaço de liderança no Cruzeiro — o que deveria potencializar sua voz e autonomia, não restringi-las. A reação desproporcional mostra que, apesar dos avanços e do crescimento do futebol feminino no Brasil, o preconceito segue infiltrado nas arquibancadas, nos comentários online e até em parcelas da imprensa esportiva.
A discussão vai muito além de uma plataforma digital. Expõe, mais uma vez, que o corpo da mulher atleta ainda é visto como algo a ser vigiado, consumido ou controlado — nunca plenamente respeitado. O caso de Gaby Soares revela que ainda há muito a ser enfrentado para que as jogadoras ocupem seus espaços sem serem alvo de preconceito, julgamentos morais ou tentativas de deslegitimar sua imagem profissional.
Enquanto isso, Gaby segue fazendo o que sempre fez: liderando dentro e fora de campo, enfrentando barreiras e contribuindo para que, no futuro, decisões simples de atletas mulheres sejam tratadas apenas como isso — decisões profissionais, legítimas e livres de estigmas.


