Servidores do CCZ de Montes Claros são flagrados brincando com escorpiões vivos; um deles chega a colocar o animal na boca - Rede Gazeta de Comunicação

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Servidores do CCZ de Montes Claros são flagrados brincando com escorpiões vivos; um deles chega a colocar o animal na boca

Prefeitura classifica o comportamento como inadmissível e abre procedimento interno para apurar responsabilidades; especialistas alertam para risco de acidentes fatais com o escorpião-amarelo

Vídeos que circulam nas redes sociais desde o início da semana mostram servidores do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Montes Claros, no Norte de Minas, manipulando escorpiões vivos de maneira imprópria e perigosa durante o expediente de trabalho.

As imagens, gravadas dentro de uma das unidades do órgão, causaram repercussão imediata e indignação entre moradores, profissionais de saúde e autoridades públicas.

Em um dos vídeos, um dos servidores é visto colocando um escorpião vivo dentro da boca, enquanto colegas observam e riem. Em outro momento, outro funcionário aparece correndo atrás de uma colega, segurando o aracnídeo nas mãos, como se fosse uma brincadeira.

Os registros — de poucos segundos, mas com grande potencial de risco — foram amplamente compartilhados em aplicativos de mensagens e redes sociais, gerando centenas de comentários de repúdio.

Espécie venenosa e perigosa

De acordo com especialistas, o animal exibido nas gravações é o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), espécie considerada a mais perigosa do Brasil e amplamente encontrada em regiões urbanas do Norte de Minas.

O veneno do escorpião-amarelo é altamente tóxico, capaz de causar reações sistêmicas graves, insuficiência respiratória e até óbito, especialmente em crianças e idosos.

A médica infectologista Luciana Ribeiro, do Hospital Universitário Clemente de Faria, explica que o comportamento registrado nos vídeos representa grave risco biológico e demonstra falta de preparo técnico e de biossegurança.

“Trata-se de um animal peçonhento, que exige manuseio específico com equipamentos de proteção. Colocar um escorpião na boca é uma atitude inconsequente, que pode resultar em acidente grave ou até fatal. É inadmissível que isso ocorra dentro de uma instituição de saúde pública”, afirmou a especialista.

Reação imediata da Prefeitura e abertura de procedimento administrativo

Em nota oficial divulgada na noite de segunda-feira (10), a Prefeitura de Montes Claros, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, confirmou a veracidade das imagens e repudiou o comportamento dos servidores envolvidos.

“O escorpião é um animal peçonhento que oferece riscos à saúde e não deve ser manipulado em hipótese alguma. A conduta registrada é considerada inaceitável e não condiz com o compromisso do serviço público com a segurança da população”, diz o comunicado.

Ainda segundo a nota, medidas administrativas internas foram adotadas imediatamente após a identificação dos envolvidos. O caso foi encaminhado ao órgão correcional do município para apuração dos fatos e eventual responsabilização disciplinar, conforme determina o Estatuto do Servidor Público Municipal.

Fontes ligadas à administração municipal informaram, sob anonimato, que os servidores podem responder por infração funcional grave, podendo ser advertidos, suspensos ou até exonerados, dependendo do resultado do processo administrativo.

Conduta “inadmissível e perigosa”, diz Secretaria de Saúde

A Secretaria Municipal de Saúde reforçou que o episódio não reflete o padrão de conduta esperado dos profissionais que atuam no CCZ — órgão responsável justamente pelo controle e combate a zoonoses e animais peçonhentos.

“O comportamento é inadmissível e fere diretamente os protocolos de segurança e as normas técnicas que regem o trabalho com espécies venenosas. O CCZ tem uma função essencial de proteger a população e garantir o manejo correto desses animais, nunca expor pessoas a riscos desnecessários”, acrescentou o comunicado oficial.

De acordo com a pasta, os servidores flagrados nas imagens já foram afastados temporariamente de suas funções até a conclusão das investigações internas.

CCZ é referência no combate a zoonoses e no controle de escorpiões

O Centro de Controle de Zoonoses de Montes Claros atua há mais de duas décadas no controle de animais transmissores de doenças, incluindo escorpiões, morcegos, roedores, cães e gatos.

A instituição é responsável por recolher animais encontrados em áreas urbanas, realizar campanhas de conscientização e promover o monitoramento epidemiológico de espécies que possam representar risco à saúde pública.

Nos últimos anos, Montes Claros registrou aumento expressivo nos casos de acidentes escorpiônicos, especialmente nos meses de calor e chuva, quando o aracnídeo se reproduz com maior intensidade.

Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) apontam que, apenas em 2024, o município notificou mais de 2,3 mil casos de picadas de escorpião, um dos maiores índices do estado.

Por isso, o caso chamou ainda mais atenção: os próprios agentes responsáveis por prevenir e combater o problema foram flagrados manuseando o animal de forma irresponsável.

Risco real e alerta à população

Especialistas reforçam que o escorpião-amarelo é uma das espécies mais adaptáveis ao ambiente urbano. Ele se reproduz de forma assexuada e pode gerar dezenas de filhotes por ano, mesmo sem a presença de um macho.

O animal costuma se esconder em entulhos, frestas de paredes, ralos e esgotos, sendo comum em bairros periféricos e regiões com acúmulo de lixo.

O veneno do Tityus serrulatus atua no sistema nervoso, provocando dores intensas, vômitos, sudorese, taquicardia e, em casos graves, edema pulmonar.

Por isso, o manuseio inadequado ou a exposição proposital ao animal — como visto nos vídeos — representa risco de morte.

A prefeitura aproveitou o episódio para reforçar o alerta à população:

“Nenhuma pessoa deve tentar capturar, brincar ou manusear escorpiões. Ao encontrar um exemplar, o cidadão deve acionar imediatamente o CCZ, que possui equipe treinada para recolher o animal com segurança.”

O órgão também orienta que residências sejam mantidas limpas e livres de entulhos, que ralos e vãos sejam vedados, e que se evite o acúmulo de lixo orgânico, que atrai baratas — o principal alimento do escorpião.

Repercussão e indignação nas redes sociais

Após a divulgação das imagens, a população de Montes Claros manifestou forte indignação. Nos comentários das publicações, internautas cobraram punição exemplar aos envolvidos e maior fiscalização sobre as práticas dentro do CCZ.

“É um absurdo! Enquanto tanta gente sofre com acidentes de escorpião, tem servidor brincando com a vida”, escreveu uma moradora da região central.

Outro usuário destacou: “Esses vídeos são uma vergonha. Isso é serviço público? Falta respeito com a função e com o contribuinte.”

A Câmara Municipal de Montes Claros informou que acompanha o caso e poderá solicitar esclarecimentos formais à Prefeitura sobre as medidas adotadas.

Próximos passos e medidas preventivas

O processo administrativo aberto pela Prefeitura deverá ouvir os servidores envolvidos e as chefias imediatas. A investigação buscará apurar se houve negligência institucional, falha de supervisão ou descumprimento de normas de biossegurança.

Enquanto isso, o CCZ anunciou que irá reforçar treinamentos internos sobre manejo de animais peçonhentos, além de intensificar campanhas educativas junto à população.

O episódio, segundo especialistas, deve servir como alerta sobre a importância do comportamento ético e responsável no serviço público, especialmente em áreas que lidam diretamente com a saúde e o bem-estar da população.

O caso dos servidores do CCZ de Montes Claros expõe uma contradição alarmante: profissionais que deveriam garantir o controle de animais peçonhentos agindo de forma contrária à própria missão do órgão.

A atitude, classificada pela prefeitura como “inadmissível”, agora é alvo de investigação e deve resultar em responsabilizações disciplinares.

Mais do que um episódio isolado, o ocorrido reacende o debate sobre formação técnica, ética no serviço público e segurança biológica — temas essenciais para a proteção da comunidade e a credibilidade das instituições.