OPINIÃO – Quando a imagem revela o invisível - Rede Gazeta de Comunicação

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OPINIÃO – Quando a imagem revela o invisível

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing

Eu sempre gostei de assistir The Walking Dead. Pode parecer estranho começar assim, mas foi com aquela série de zumbis que aprendi a observar o olhar humano — o medo, a esperança, a fé em ruínas e, ainda assim, sobrevivente. E talvez por isso The Chosen tenha me tocado tanto.

Sempre tive uma relação curiosa com a Bíblia. Minha parte favorita sempre foi Romanos e Apocalipse. Gosto do que é direto, do que vem com instruções claras: o que fazer, como fazer. Sou assim — objetiva, analítica, metódica. E como toda boa autista que ama a lógica das coisas, confesso que a Bíblia, em boa parte, me soava como um enigma. Lindo, mas indecifrável.

Até que veio The Chosen. E, de repente, tudo começou a fazer sentido de uma forma que eu jamais poderia imaginar.

Foi assistindo à série que entendi que as palavras ganham corpo quando viram gesto, olhar, pausa. Quando vi Jesus e Mateus no monte, treinando o Sermão da Montanha, senti algo diferente. A paciência dele, o cuidado nas palavras, o modo como parecia medir cada frase como quem alimenta crianças famintas de compreensão. Era como ver a ternura em estado puro.

Naquela cena, me lembrei da minha professora do primeiro ano. Ela sabia que eu não era como os outros alunos, mas não desistiu de mim. Tinha uma doçura firme, dessas que ensinam sem ferir, dessas que acreditam mesmo quando ninguém entende direito o seu jeito. E, como Jesus com Mateus, ela me ajudou a aprender — não apenas as letras, mas o sentido de ser vista.

O que mais me encanta em The Chosen é que, além de toda essa profundidade espiritual, há também um cuidado artístico. As tomadas, a luz, os enquadramentos. Gosto de observar a linguagem da câmera, as cores, o ritmo da cena. E quando percebi que as multidões subindo o monte lembravam, visualmente, os campos de The Walking Dead, sorri. Os mesmos movimentos, a mesma expectativa — só que, dessa vez, não era fome de carne, era fome de alma.

Sou viciada em filmes e séries. Gosto de mergulhar nelas e encontrar pedaços de mim nas histórias. Recentemente, assisti a um documentário chamado A Vizinha Perfeita, e ele também me deixou cheia de perguntas. Quando converso com as pessoas sobre como vejo o mundo — o que noto, o que sinto, o que analiso —, às vezes me sinto diferente de novo.

Mas talvez The Chosen tenha me mostrado que ser diferente não é estar fora da história. É apenas enxergá-la de outro ângulo — aquele que, no fim das contas, também revela o divino.

Porque a fé, assim como a arte, se revela nas entrelinhas. E quando a câmera se detém sobre o olhar de Jesus, percebo que é ali, naquele instante silencioso, que tudo — absolutamente tudo — começa a fazer sentido.