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OPINIÃO

Os bastidores da arena da comunicação: os bloqueadores invisíveis ao jogo da soma

Adelaide Valle Pires

Psicóloga por formação, arqueóloga de coração

Ao longo da minha trajetória profissional, transitei por diferentes arenas: corporativa, educacional e, agora, literária. Em todas elas, a comunicação sempre foi meu ponto de partida e, curiosamente, também o meu maior desafio.

Hoje, ao lançar o livro A Arena da Comunicação, percebo que essa jornada foi, na verdade, uma escavação dos meus próprios bloqueadores invisíveis — aqueles que silenciam a expressão antes mesmo da fala ou da escrita.

Durante anos, meu trabalho consistiu em ajudar pessoas a elaborar seus planos de desenvolvimento individual, os conhecidos PDIs. Quando cheguei ao Café do Escritor, senti que apenas havia mudado de cadeira: agora, era eu quem estava sendo orientada. Criei até um novo termo para essa fase: meu PDE — Plano de Desenvolvimento de Escrita.

Foi nesse espaço de trocas e descobertas que comecei a compreender, com mais clareza, as engrenagens do meu próprio processo criativo. Hoje, gostaria de dar uma nova roupagem ao PDE. Pensando nisso  fiz um desenho: o mapa emocional e filosófico da minha escrita. Nele, marquei alguns bloqueadores e, junto a cada um, imaginei possíveis antídotos.

O mapa emocional e filosófico da minha escrita: o meu verdadeiro PDE- Plano de Desenvolvimento Essencial

O primeiro bloqueador  a comparação. Por muito tempo, acreditei que, para ter uma história interessante, era preciso que ela surgisse de uma dor extrema, de um trauma ou de uma superação heróica. Como minha vida foi marcada por afeto e por um estilo positivo, temi que faltasse drama e, por conseqüência, público. Demorei a entender que cada trajetória tem sua densidade própria e que comunicar também é aprender a honrar o que não grita, mas sustenta.

Hoje percebo que meu antídoto é o amor: aprender não pela dor, mas pelo encanto, pela curiosidade e pela força tranqüila de continuar cavando dentro de mim.

O segundo bloqueador a linguagem: a falta de domínio da linguagem tecnológica, a dificuldade com o inglês, a timidez e o medo de falar em público. Demorei a perceber que podemos comunicar qualquer coisa quando somos sinceros. Esse aprendizado veio depois de assistir a uma série em que um rapaz entrega um livro intitulado A Língua de Sinais do Amor. Sua namorada era surda e muda, e ela conseguia se comunicar perfeitamente com a avó dele, que não conhecia a língua de sinais.

Para mim, o grande antídoto foi perceber que o que realmente nos move é a sinceridade da entrega: a linguagem que nasce da conexão verdadeira. Percebi que o excesso de adjetivos pode ser uma armadilha, empurrando-nos para o julgamento, enquanto o verbo nos leva à ação, ao movimento e à transformação. Pensando também em Fernando Pessoa, em seu poema Agir é a verdadeira inteligência, escolhi esse verbo para caracterizar a letra A da metodologia CHARME.

Aqui também recebi uma grande lição, vinda do livro Vencendo com as Pessoas, de John Maxwell, que fala sobre o princípio do elevador: em nossos relacionamentos, podemos empurrar as pessoas para cima ou para baixo. Certas pessoas agregam algo à vida — e nós as adoramos. Certas pessoas subtraem algo da vida — e nós as toleramos. Certas pessoas multiplicam algo na vida — e nós as valorizamos. E certas pessoas criam divisões na vida — e nós as evitamos.

O terceiro bloqueador é a paralisação: ficar preso a um único tempo ou estado mental, que nos impede de criar, agir e nos transformar. Movimento é vida; estagnação é morte.

Lembro-me bem de um conselho da minha mãe, já doente: “Dormir é perder tempo.” Hoje entendo perfeitamente o que ela queria me transmitir: é o movimento, o estar ativo, que nos faz sentir vivos. É transitar pelos três tempos — passado, presente e futuro. O passado é fonte de aprendizado; o presente, campo de experimentação; e o futuro, território da imaginação.

O quarto bloqueador é a divisão. Lembro-me de uma frase do filme A Fuga das Galinhas: “Dividir para conquistar. É isso que o inimigo quer.”

Antes, eu entendia meu negócio como T&D: treinamento, saber fazer, e desenvolvimento, saber ser. Compreender que o meu verdadeiro negócio é o relacionamento — tanto comigo quanto com os outros — foi libertador. Talvez o segredo seja entender a dualidade da vida: assim como existe o dia e a noite, o trabalho e o ócio, a alegria e a tristeza, todos esses lados coexistem e permeiam constantemente o nosso tempo.

Essa compreensão dialoga com o que aprendi ao longo da carreira criando jogos e ferramentas lúdicas. Meu divisor de águas foi o desenvolvimento de um jogo corporativo para a Novo Nordisk sobre modelo de gestão. Ali, entendi que todo jogo se move entre dois pólos: o associativo, que coopera, e o dissociativo, que compete. Os jogos cooperativos me ensinaram que o desafio verdadeiro não é vencer o outro, mas se superar.

Talvez seja por isso que evito temas como política, religião e futebol — não por falta de interesse, mas porque, geralmente, dividem. Prefiro espaços onde o diálogo soma, não separa. Essa postura tem muito a ver com o exemplo do meu pai: um homem que, embora viesse de uma família católica e freqüentasse a igreja Batista, cultivava o respeito pelas diferenças. Guardo dele uma frase anotada em um de seus cadernos, retirada de um quadro da igreja dos Mórmons: “Para aqueles que chamamos de mortos, a morte não é o problema; o problema é ser esquecidos.”

Essa reflexão também me faz lembrar do princípio do elevador, citado por John Maxwell: em nossos relacionamentos, podemos elevar ou derrubar uns aos outros. Algumas pessoas somam, outras subtraem, algumas multiplicam e outras dividem. E, justamente por compreender isso, aprendi a escolher com mais consciência os espaços onde o diálogo soma, não separa.

Talvez por isso, na minha própria casa, as peças de decoração traduzem esse mesmo espírito: um Buda e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida lado a lado, lembrando-me diariamente da importância da convivência e do respeito.

Ao longo da minha carreira, criar jogos e ferramentas lúdicas me ensinou que cada desafio, cada bloqueio e cada reflexão é uma oportunidade de aprendizado e de ação. A experiência me mostrou que não existe fórmula pronta, mas que é possível aprender a transitar entre tempos e contextos com consciência e criatividade.

Nos bastidores da arena da comunicação, descobri que o verdadeiro jogo que quero jogar é o jogo da soma — aquele em que cada texto, cada encontro e cada experiência amplia o sentido de ser e estar no mundo.