EDITORIAL | Os protagonistas escondidos da pelada - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | Os protagonistas escondidos da pelada

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing

Hoje é dia de pelada — e eu já estou animada. Sim, mais uma vez não jogo, mas amo estar lá, no Max Min Clube, pra acompanhar meu craque.

Na famosa pelada de futebol, há heróis que não aparecem nas fotos nem ganham apelidos gloriosos. A bola rola, os craques improvisam dribles e arrancadas… e os craques aqui têm entre 50 e 80 anos! São, pra mim, figuras quase mitológicas — jogam com uma disposição que desafia o tempo, o joelho e o calor de Montes Claros. Às vezes com chuva, mas quase sempre sob aquele sol de rachar.

Mas não são eles os protagonistas deste texto.

Porque o verdadeiro espetáculo começa bem antes, quando alguém escreve o primeiro nome de quem chega. Lá estão Paulo e João Neto, organizando a lista, sorteando os times, gritando os nomes.

E isso é só o que eu, que nem jogo, consigo acompanhar!

Tem ainda o Renatinho, que confere o campo meticulosamente, traz os coletes, enche a redonda e — o mais importante — garante o cafezim antes do apito inicial. Sem eles, a pelada perde a graça, porque o riso corre frouxo, a amizade se renova e, claro, sempre tem o batedor — aquele que discute quando gritam os times, ou quando alguém não gostou da escalação.

Aliás, é minha hora mais tensa: quando colocam o nome dele nos últimos times ou fora da posição que eu gosto que ele jogue. Meu marido, claro!

Porque ele está lá pra jogar — e não pra ficar na sombra, como uns e outros que tem lá… kkkkk. Brincadeira à parte, gosto mesmo é de vê-lo correndo, feliz, menino outra vez.

Essa organização é uma arte. E fico impressionada como cada um é lembrado pelo nome ou apelido, com atenção e cuidado. É como se cada detalhe fosse um fio de costura que faz o jogo acontecer.

Depois vem o juiz, figura mal-amada, mas essencial. Não lembro de todos, mas lembro do Wilson.

Sempre há um que se oferece — ou é “escolhido” por falta de opção, kkkkk. Ele apita com a autoridade de quem segura o destino da pelada no sopro do apito. Sabe que ninguém vai concordar com ele — e, no fundo, nem ele mesmo tem certeza se foi falta ou não. Mas é firme.

“Segue o jogo!”, ele diz, como quem tenta manter a paz entre velhos amigos. E pode apostar, sempre tem uma confusãozinha, e muita zueira.

O bandeirinha, então, é quase um poeta incompreendido. Levanta o braço tímido, com o pano improvisado, pra marcar impedimento — e ouve o coro:

“Tá maluco, tava dois metros atrás, rapaz!”

Ele abaixa a bandeira, dá um meio sorriso e deixa pra lá. Sabe que, na pelada, a verdade não importa tanto quanto a boa história pra contar depois.

E há o goleiro — os guardiões anônimos, entre eles um primo meu, Fala ai Léo, não é assim? Não sei o nome de todos, mas se sintam lembrados!

O Goleiro, esse é o mártir das peladas. Sempre sobra pra ele. Se defende bem, “era fácil”. Se toma um frango, “nunca mais volta pro gol”, lembrei de Careca, não sei o nome dele. É o único que sai sujo, suado e sem glória, mas também o primeiro a chegar e o último a sair, catando as bolas que foram parar lá no fundo da trave.

Enquanto isso, os artilheiros discutem quem fez o gol mais bonito e os comentaristas de beira de campo reescrevem a história do jogo — cada um com sua versão, claro.

Ninguém lembra que, sem os anônimos da bola, a pelada não existiria.

No fim, todos se reúnem pra dividir risadas, cerveja e histórias que ficam melhores a cada repetição. Isso com regada a comida de boteco do Bar da Lora. Espero ansiosa pela dobradinha…

A vida, afinal, é uma eterna pelada: injusta, imprevisível, mas sempre vale o próximo jogo.

Ah, eu amo isso.

E posso não saber o nome da maioria, mas quando falta alguém, eu sempre sinto. É minha turma — ainda que, oficialmente, eu não seja da turma… kkkkk. Mais algum viciado em pelada ai que queria compartilhar sua história me mande no contato paulapereira2207@gmail.com. Até então!