Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Por muito tempo, achei que havia algo de errado comigo. Como se faltasse uma peça no quebra-cabeça do meu jeito de ser — e eu tentava forçá-la todos os dias para caber em moldes que não foram feitos para mim. Quando recebi o diagnóstico de autismo na vida adulta, tudo fez sentido. Mas a sensação de alívio durou pouco, porque junto com ele veio também o peso da invalidação constante.
Passei a vida toda ouvindo que eu era “impulsiva demais”, “esquisita”, “brigona”, “intensa”. Quando criança, tinha crises e era conhecida por bater nos meus irmãos. Era a forma que eu tinha de lidar com um mundo que não compreendia — nem a mim. Na escola, a dificuldade era imensa. As aulas, os sons, os comandos, o barulho da sala, tudo me sufocava. A única vez em que as coisas funcionaram foi no ano em que a tia Clemar foi minha professora. Eu não tinha diagnóstico, mas ela sabia que eu era diferente. Enquanto os outros professores me deixavam à deriva quando eu me desligava, ela vinha até mim, batia os dedos na carteira e dizia: “Vamos voltar?”. Ela me trazia de volta com cuidado, com respeito, com afeto. Aquele foi o único ano em que passei direto.
Apesar disso, cresci me sentindo burra e incapaz. Tanto que não tive coragem de tentar o vestibular que eu realmente queria, na Unimontes. Não me achava à altura. Quando passei em Jornalismo na Funorte, ninguém na minha família comemorou. Meus irmãos tinham passado na UFMG — então, o que era passar “numa faculdade particular”? Mas ali, naquele curso, eu floresci. Me tornei uma das melhores alunas da turma. Só que dentro, o sentimento de inadequação continuava — como se meu esforço nunca fosse suficiente.
Quando finalmente entendi que sou autista, algo começou a mudar. Com a ajuda da Terapia Cognitivo-Comportamental, iniciei um processo doloroso, mas transformador: aprender a dar nome aos meus sentimentos, a sair do redemoinho da emoção que me engolia e buscar alguma racionalidade. Eu, que era rotulada de impulsiva, comecei a identificar o que vinha antes do impulso. Comecei a dizer: “isso é raiva”, “isso é medo”, “isso é sobrecarga”. E, com isso, pude começar a me proteger — de mim mesma, dos julgamentos, do mundo.
Mas é difícil. Muito difícil. Especialmente quando o que você mais encontra é descrença, comentários cruéis disfarçados de opinião, frases que doem mais do que deveriam.
“Você é comunicativa demais pra ser autista.”
“Todo mundo tem um pouco de autismo.”
“Depois que descobriu o diagnóstico, ficou mais autista ainda?”
“Você não tem cara de autista.”
E o pior: alguns profissionais de saúde reforçam esse tipo de ideia, como se o diagnóstico fosse “moda” ou “desculpa”. Isso machuca. Isso deslegitima uma vida inteira tentando sobreviver num mundo que nunca foi feito pra gente.
Uma das coisas mais mal compreendidas é a sensibilidade sensorial — que, para nós, é tanto um contraditório superpoder quanto uma dificuldade extrema. O mundo típico tende a julgar essas reações como “frescura” ou “falta de resistência emocional”. Mas a realidade é que estímulos não compreendidos nem respeitados podem causar uma sobrecarga emocional e física devastadora. Um simples aperto de mão pode ser insuportável — e não, não é “nojo de gente”. É que a textura da pele, a temperatura, a umidade… tudo pode soar, para nós, como se estivéssemos tocando algo frio e gosmento, ou seco e áspero como a casca de um bicho. E aquela sensação permanece na mão por muito tempo. Isso é real. Isso desgasta. Isso exaure.
Mais doloroso ainda é quando a própria família se recusa a aceitar. Como se o diagnóstico colocasse um “defeito” no currículo da filha, da irmã, da neta. Mas não é defeito. É explicação. É caminho. É chance de entender, de cuidar, de fazer diferente.
O problema é que o mundo só reconhece o autismo que se encaixa no estereótipo. Quem, como eu, passou a vida inteira mascarando, “funcionando”, buscando performance social para parecer “normal”, é invisível até mesmo entre os invisíveis. Só que fingir cansa. E o preço disso é alto: ansiedade, crises silenciosas, isolamento, um esgotamento profundo por ter que ser alguém que não se é — só para caber.
A TCC me ensinou que eu não precisava caber. Que eu podia me entender, me organizar internamente, acolher a minha forma de ser. Que meus sentimentos não são exagerados — são reais. Que meu jeito de processar o mundo não é errado — só é diferente.
Mas para isso, o mundo precisa mudar também. Precisamos falar sobre os níveis de suporte, que são reais e necessários. Pessoas autistas não precisam apenas de laudos; precisam de apoio contínuo, de compreensão individualizada, de respeito pelas suas experiências. Não importa se o autismo está no “nível 1” ou no “nível 3”: todos merecem ser levados a sério.
Já passou da hora de pararmos de dizer o que uma pessoa autista “deveria” parecer. O autismo não tem um rosto, não tem uma fórmula. Tem vidas diversas, histórias cheias de luta, e muita força escondida sob a dor do silêncio.
Se você leu até aqui, fica um pedido: não minimize. Não duvide. Não diagnostique com base no que acha que sabe. Ouça. Acredite. Respeite. Porque nós, que passamos a vida inteira nos encolhendo para caber, só queremos existir por inteiro.


