Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Os dias têm começado com um silêncio áspero, como se até os pássaros tivessem desistido de cantar. O tempo seco, esse velho conhecido de setembro, voltou com sede. O ar pesa sobre o peito, os olhos ardem, e a pele, feita de poeira e sal, parece querer se esconder do sol. O cerrado, com suas folhas duras e resistentes, sofre calado. A terra do sertão geraizeiro, rachada e vermelha, mais parece uma boca aberta em súplica.
No sertão dos Gerais, onde vive o povo geraizeiro, o calor não é apenas físico — é também humano. O sertanejo dali, com seu espírito resiliente, é como a vegetação nativa: se dobra, mas não quebra. Nas veredas escondidas entre os chapadões e grotas, pulsa a esperança de quem aprendeu a lidar com o tempo como se fosse parente antigo — bravo, imprevisível, mas necessário.
É impossível não lembrar de Graciliano Ramos e suas figuras secas, de olhos fundos e palavras curtas. Em suas páginas, o sertão arde, a fome espreita, e os homens carregam o pó no rosto como se fosse tatuagem de origem. Mas mesmo em sua dureza, havia beleza — uma beleza árida, como a que vemos agora nas paisagens que se esfarelam sob o sol, mas resistem. Assim também é o geraizeiro: calado, mas cheio de mundo por dentro.
As sensações térmicas ultrapassam os 40 graus, mesmo quando o termômetro não acusa tanto. É o corpo que sente, que entende. Cada rajada de vento quente parece um aviso — ou um desabafo. Tudo estala, tudo seca, tudo clama.
Mas há rumores no céu. Ao longe, as nuvens começam a se ensaiar em dança tímida. A previsão indica uma possível retomada da umidade nos próximos dias. Talvez uma chuva fina, talvez uma pancada breve, mas suficiente para despertar o cheiro da terra molhada — um perfume que o sertanejo conhece bem e que embriaga mais do que qualquer vinho.
A chuva, quando vier, será celebração. Não apenas de alívio, mas de continuidade. Porque o sertão, apesar da secura, nunca foi fim — sempre foi recomeço. E o povo geraizeiro sabe disso como ninguém.
Que venha a chuva. Que venha a vida. Porque a terra pode estar seca, mas o coração do sertão, esse, jamais resseca.


