EDITORIAL | Quantas mortes ainda serão necessárias para que se leve a depressão a sério? - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

EDITORIAL | Quantas mortes ainda serão necessárias para que se leve a depressão a sério?

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing

Vivemos tempos de campanhas coloridas, hashtags de apoio e promessas de empatia. Mas, na prática, o que se vê é uma sociedade que ainda reage com desprezo, ignorância ou puro desconforto diante de quem sofre silenciosamente. A depressão continua sendo minimizada, romantizada ou ignorada — até que seja tarde demais.

O suicídio, por sua vez, é tratado como tabu. Só se fala dele quando há uma tragédia que choca, uma perda precoce, uma vida interrompida de forma que ninguém entende — mas quase sempre alguém poderia ter percebido.

Sim, há sinais. Eles existem. O problema é que ninguém quer vê-los.

É mais fácil rotular como “drama”, “frescura”, “fraqueza” ou “falta de Deus” do que encarar o sofrimento alheio como um pedido legítimo de ajuda. No fundo, ainda nos falta coragem para lidar com a dor do outro.

E não podemos mais fingir que isso não tem consequências.

Depressão não escolhe rosto, classe social ou faixa etária. E embora seja uma condição complexa, com causas múltiplas — genéticas, psicológicas e sociais —, o isolamento é quase sempre um denominador comum. A ausência de apoio emocional, principalmente no núcleo familiar, é um fator que agrava e perpetua o sofrimento.

Pais que não escutam, irmãos que julgam, amigos que desaparecem: muitos suicídios começam com uma sensação de abandono. E essa responsabilidade, por mais dura que seja, é coletiva.

Quando a dor encontra o silêncio

Entre as populações mais vulneráveis, pessoas com autismo sofrem ainda mais. Em um mundo que ainda mal entende a neurodiversidade, indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam diariamente incompreensão, solidão e sobrecarga emocional. Suas dores são reais, mas frequentemente silenciadas ou mal interpretadas.

O mesmo vale para quem vive com transtornos como ansiedade, TOC, bipolaridade ou borderline. A rede de apoio, quando existe, é frágil. O diagnóstico, muitas vezes tardio. O tratamento, inacessível para boa parte da população.

E o preço disso está estampado nos números que ninguém quer encarar: as taxas de suicídio continuam alarmantes, especialmente entre jovens e pessoas neurodivergentes.

A pergunta que ninguém gosta de ouvir: onde estamos falhando?

Não basta postar #SetembroAmarelo uma vez por ano. Não basta dizer “conte comigo” se não estivermos realmente dispostos a ouvir. E, principalmente, não basta exigir que a pessoa peça ajuda — é preciso criar um ambiente onde ela se sinta segura para fazê-lo.

Enquanto continuarmos tratando a saúde mental como algo secundário, os casos de suicídio continuarão nos empurrando para a mesma pergunta: “por que ninguém fez nada?”.

A resposta é dura, mas necessária: porque preferimos o conforto da negação ao desconforto da ação.

Precisamos de mais do que campanhas — precisamos de compromisso

É preciso ampliar o acesso à saúde mental pública. Fortalecer os CAPS. Garantir profissionais capacitados nas escolas, nos postos de saúde, nas empresas. Precisamos parar de tratar psicólogo como luxo e psiquiatra como último recurso.

E, acima de tudo, precisamos nos responsabilizar enquanto sociedade. O apoio familiar, o afeto, a escuta ativa — isso ainda salva vidas. Mas só se for real, e não performático.

Este editorial não é um apelo, é um posicionamento: não podemos mais aceitar que o silêncio continue matando. É hora de romper o ciclo de omissão.

Quem sofre não precisa de julgamento, precisa de presença. Precisa ser ouvido, antes que seja tarde. E essa escuta, infelizmente, ainda é um luxo em um mundo cada vez mais ensurdecedor.