Entre o tablet e o folclore (e a maratona do Uber) - Rede Gazeta de Comunicação

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Entre o tablet e o folclore (e a maratona do Uber)

Adelaide Valle Pires

Psicóloga de formação arqueóloga de coração

Desde ontem estou em companhia dos meus netinhos. O Heitor, em especial, parecia em ebulição: hoje era o grande dia da maratona de conhecimento interno do Colégio Otto. Ansioso, ainda na véspera já queria saber de mochila, uniforme, lápis, borracha, apontador… foi preciso até ligar para a mãe e improvisar reservas para compor a bagagem mínima de um pequeno maratonista das idéias. Dormiu cedo, mas antes de clarear o dia já estava de pé, pronto para despertar o irmãozinho, revisar mentalmente os prêmios — primeiro lugar: bolsa de estudos e tablet; segundo: fone sem fio; terceiro: fone à prova d’água.

Perguntei o que mais queria ganhar. A resposta veio certeira: “o primeiro lugar, vovó, o tablet… e a bolsa, para ajudar papai e mamãe.” Matemática ou português? Ele se declara fera em números, treinado no Kumon, mas não deixa dúvidas de que também escreve bem. Aproveitei para provocá-lo: “Você sabe que dia é hoje? É o Dia do Folclore.” Ele me olhou intrigado: “Mas o que é folclore?” E assim seguimos o papo, entre histórias e tradições. Quem sabe, pensei, esse tema não apareça numa redação?

E foi justamente nesse clima que encontrei, como quem puxa um fio de destino, uma relíquia: um trabalho escolar antigo do meu filho mais velho, onde, criança ainda, explicava o que é folclore e citava em bibliografia Montes Claros sua história sua gente seus costumes de Hermes de Paula e as Memórias históricas de Prados, escritas por Dario Cardoso Vale — o querido avô dele, bisavô do Heitor, que ele nem chegou a conhecer. Folheando aquelas páginas, Heitor percebeu: sua maratona de hoje não começava na prova do colégio, mas já vinha sendo corrida por gerações, entre o desejo por um tablet e a herança invisível do folclore.

Até aí, parecia tudo sob controle. Mas a maratona ainda tinha muitas etapas…

A ida foi um capítulo à parte. Heitor perguntava de cinco em cinco minutos: “E agora? Já vamos? Ta na hora?” Almoçamos mais cedo, e ao meio-dia e quinze lá estávamos na portaria, pedindo Uber. Três corridas canceladas. O relógio correndo, o menino roendo as unhas e eu respirando fundo. Quando finalmente um motorista nos levou, chegamos com apenas dois minutos de sobra para o fechamento do portão. A ansiedade já era coletiva.

Ao ver os colegas entrando de uniforme e mochila, Heitor murchou: “Vovó, eu não tô com a blusa… não trouxe a mochila…” Colou no meu braço, encolhido. A professora acalmou: “Não tem problema.” Outro professor o levou pela mão, mas o menino ainda me olhava de rabo de olho: “Mas eu não tô de uniforme…” Respirei fundo e mostrei outra criança também sem uniforme. Foi o suficiente para ele seguir.

O durante foi outra experiência. O auditório dos bastidores estava com algumas  mães,  todas de uma geração bem mais nova. Eu era a única avó, mas não fiquei só observando: me enturmei, entrei nas conversas e vivi aquele ambiente de expectativa junto com elas. Afinal, ser vó também é participar.

Quando Heitor saiu, logo disse: “Vamos descer e pegar o Uber lá no Bretas. A gente lancha e depois vai embora.” Fomos. Perguntei sobre a prova: “Teve redação? Caiu folclore?” Ele riu: “Nada disso, vovó. Sabe aquelas questões que têm um tanto de resposta? Eram vinte: dez de português e dez de matemática.” Aliviada, percebi que ele parecia confiante.

A volta, porém, ainda guardava a prova mais difícil do dia. Pedi um Uber mais caro e rápido, mas depois de andar um quarteirão percebi que minha bolsinha, com a squeeze de água de coco que levei para eles, tinha ficado na lanchonete. Pedi ao motorista para voltar, ofereci pagar a diferença, mas ele preferiu encerrar a corrida ali. Uma moça que presenciou tudo ficou indignada, como ele fez isso você com duas crianças.  Pegou meu telefone e fez a reclamação por mim. Só então chamei outro Uber — que veio até mais barato, como se a própria plataforma tivesse reconhecido o erro.

No fim, Heitor fez a maratona do conhecimento em português e matemática. Eu, confesso, vivi outra: a maratona do estresse com o Uber, da ida à volta. Mas chegamos em casa com a sensação de que, entre tablets e folclore, provas e corridas, ser avó também é correr maratona — e sempre vale a pena.