Um dos maiores e mais emblemáticos peixes da bacia do Rio Doce, o surubim-do-Doce está hoje ameaçado de extinção e quase desaparecido dos rios mineiros. A espécie, que já nadou livremente por águas que cortam diversas regiões do estado, incluindo partes do Norte de Minas, resiste atualmente apenas em trechos remanescentes e preservados dos rios Santo Antônio, Piranga e Manhuaçu.
Com o objetivo de frear esse processo de desaparecimento e recuperar a presença do surubim nas águas mineiras, o Instituto Estadual de Florestas (IEF), por meio do Projeto Surubim-do-Doce e com o apoio do programa GEF Pró-Espécies, lançou o Manual de Boas Práticas para a Conservação do Surubim-do-Doce. A publicação, de linguagem acessível, é voltada para pescadores, ribeirinhos, gestores públicos e a sociedade em geral, buscando orientar sobre as atitudes que podem ser adotadas para garantir a sobrevivência do maior peixe nativo da bacia do Rio Doce.
O documento alerta que as principais ameaças ao surubim são, em grande parte, causadas por ações humanas: a construção de barragens que interrompem o fluxo natural dos rios, o assoreamento provocado pela degradação das margens, a introdução de espécies exóticas, a sobrepesca e a poluição dos cursos d’água com rejeitos e efluentes industriais. Todos esses fatores vêm contribuindo, ao longo das últimas décadas, para o colapso das populações da espécie.
No Norte de Minas, onde há forte relação cultural e econômica com os rios, os impactos vão além da biodiversidade. Pescadores que dependem da fauna aquática para seu sustento enfrentam dificuldades com a escassez de espécies nativas. O surubim, peixe símbolo de fartura e vida nas águas do Rio Doce, representa uma atividade tradicional e uma identidade local que está se perdendo junto com o próprio peixe. Sua ausência não é apenas um sinal de desequilíbrio ambiental, mas um reflexo da perda de um modo de vida profundamente enraizado nas comunidades ribeirinhas do semiárido mineiro.
Lorena Miranda, analista ambiental do IEF, destaca que o manual também tem papel educativo e social: “A ideia é reunir, em uma linguagem simples, informações que mostrem às comunidades locais a importância do surubim, por que ele está ameaçado, e como todos podem contribuir para sua conservação. Esperamos que esse material incentive práticas sustentáveis, promova ações de educação ambiental e, acima de tudo, desperte um novo olhar para a convivência com a natureza”, afirmou.
O surubim-do-Doce é uma espécie sensível, que vive em águas rápidas, profundas, limpas e bem oxigenadas — características que estão desaparecendo em muitos trechos dos rios mineiros, inclusive na bacia do Jequitaí, que integra o complexo hídrico do Norte do estado. Sua presença é considerada um indicativo da saúde do ecossistema. Quando ele desaparece, é sinal de que algo está errado com o ambiente.
A publicação do manual faz parte das ações do Plano de Ação Territorial para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção do Território Espinhaço Mineiro (PAT Espinhaço Mineiro). O plano cobre uma área de mais de 105 mil quilômetros quadrados, abrangendo os biomas da Caatinga, do Cerrado e da Mata Atlântica — incluindo municípios do Norte de Minas como Grão Mogol, Botumirim, Cristália e Francisco Sá. Ao todo, são 24 espécies em situação crítica de extinção contempladas diretamente pelo plano, mas suas ações beneficiam mais de 1.700 espécies ameaçadas em toda a região.
Segundo o IEF, a criação do manual representa mais do que uma ferramenta de gestão ambiental: é um apelo à responsabilidade coletiva. Preservar o surubim-do-Doce é preservar também os rios, as memórias, a cultura e os modos de vida dos povos do Norte de Minas que historicamente dependem desses recursos naturais.
O documento está disponível para acesso gratuito no site do Instituto Estadual de Florestas e também será distribuído durante ações educativas em comunidades ribeirinhas e escolas públicas da região.
Sobre o GEF Pró-Espécies
O programa GEF Pró-Espécies – Todos contra a Extinção é uma iniciativa coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), da ONU Meio Ambiente e da Fundação de Apoio ao Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). Em Minas Gerais, o programa é desenvolvido em parceria com o IEF e tem como meta evitar a extinção de espécies da fauna e da flora consideradas criticamente ameaçadas.
A esperança é que, com o engajamento de todos os setores da sociedade — desde os governos até os moradores das margens dos rios — o surubim-do-Doce volte a nadar livremente pelas águas do Rio Doce e seus afluentes, inclusive nos cursos d’água que irrigam o semiárido do Norte mineiro. Afinal, preservar a natureza é também garantir um futuro mais justo, saudável e sustentável para todos.


