O avanço dos casos de feminicídio no Brasil e o aumento da violência contra mulheres foram tema central de um ciclo de debates realizado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Especialistas, parlamentares e pesquisadores participaram do encontro para discutir estratégias de enfrentamento ao problema e apontaram que o cenário atual revela uma escalada preocupante de agressões e assassinatos motivados por gênero.
O debate integrou a programação do Sempre Vivas 2026, iniciativa do Parlamento mineiro que promove reflexões sobre direitos das mulheres e marca o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março.
Durante a atividade, intitulada “Educar, decidir, efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos”, participantes alertaram para a gravidade dos dados e para a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e combate à violência de gênero.
“Existe uma guerra contra as mulheres”, diz pesquisadora
A professora Cláudia Maia, do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e coordenadora do Observatório Norte-mineiro de Violência de Gênero, abriu a mesa de debates apresentando um panorama sobre o crescimento dos crimes contra mulheres no país.
Segundo a pesquisadora, os dados revelam uma realidade alarmante e indicam que as mulheres enfrentam atualmente um ambiente social marcado por hostilidade e violência sistemática.
Durante sua exposição, Cláudia Maia apresentou uma “nuvem de palavras” construída a partir de reportagens publicadas entre 2015 e 2025 sobre feminicídios. Entre os termos mais recorrentes estavam palavras como “espancada”, “estrangulada”, “queimada”, “asfixia” e “mutilada”.
Para a professora, essas expressões revelam não apenas o aumento dos crimes, mas também o grau de crueldade envolvido em muitos casos de violência contra mulheres.
Segundo ela, os ataques frequentemente se concentram em partes do corpo associadas simbolicamente ao feminino, como o rosto, evidenciando que esses crimes carregam um componente de ódio de gênero.
Feminicídio cresce no país
Dados apresentados durante o debate mostram que o Brasil registrou aproximadamente 1.470 casos de feminicídio no último ano, o maior número desde que o crime foi tipificado na legislação brasileira, em 2015. As informações constam no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, responsável pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo Cláudia Maia, embora o país tenha criado mais de 100 leis de enfrentamento à violência contra mulheres durante o período da pandemia, os índices de feminicídio continuaram aumentando.
Para a pesquisadora, um dos grandes desafios é desnaturalizar a violência, combatendo a banalização do problema e o tratamento superficial que muitas vezes aparece na cobertura de casos de agressão ou assassinato.
Ela critica, por exemplo, o uso de expressões como “crime passional” ou “briga de casal”, que podem minimizar a gravidade da violência de gênero.
Violência ligada a relações de poder
Durante o debate, especialistas ressaltaram que o feminicídio não pode ser entendido apenas como consequência de conflitos pessoais.
Segundo Cláudia Maia, trata-se de um crime ligado a relações de poder, que muitas vezes se intensifica quando mulheres buscam autonomia ou decidem romper relacionamentos abusivos.
A pesquisadora explica que estruturas sociais patriarcais ainda associam o exercício de poder à masculinidade, o que pode gerar reações violentas quando mulheres contestam relações de dominação.
Nesse contexto, muitas agressões evoluem para crimes mais graves justamente quando a vítima tenta encerrar o relacionamento ou denunciar a violência.
Influência de grupos misóginos
Outro ponto destacado no debate foi a influência de comunidades misóginas na internet, que disseminam discursos de ódio contra mulheres.
Cláudia Maia mencionou movimentos conhecidos como Redpill e Incel, grupos presentes em redes sociais e fóruns digitais que difundem ideias baseadas em ressentimento e hostilidade contra mulheres.
Para a pesquisadora, o crescimento dessas comunidades pode contribuir para reforçar comportamentos violentos e ampliar a normalização do discurso de ódio.
Caso recente reforça preocupação
A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia, deputada Ana Paula Siqueira, citou episódios recentes de violência que reforçam a necessidade de discutir o tema de forma mais ampla.
Entre eles, mencionou um caso ocorrido no Rio de Janeiro envolvendo um grupo de adolescentes acusado de estupro coletivo.
Segundo a parlamentar, um dos jovens envolvidos chegou à delegacia usando uma camiseta associada ao lema difundido por comunidades ligadas ao movimento Redpill, o que, para ela, evidencia a influência de discursos de misoginia entre jovens.
Violência contra mulheres trans também preocupa
O ciclo de debates também abordou o tema do transfeminicídio, termo usado para designar o assassinato de travestis e mulheres trans motivado por discriminação de gênero.
A pesquisadora em políticas públicas e direitos humanos Anna Tulie destacou que esse tipo de crime ainda enfrenta dificuldades de registro e reconhecimento nas estatísticas oficiais.
Segundo ela, muitas instituições de segurança pública não registram adequadamente a identidade de gênero das vítimas, o que gera subnotificação dos casos.
Anna Tulie defende a criação de um sistema nacional integrado de dados para registrar de forma mais precisa as ocorrências de violência contra mulheres e pessoas trans.
Ela também chamou atenção para o fato de que cerca de 80% das pessoas trans assassinadas no país são negras, o que evidencia a necessidade de considerar também o recorte racial na elaboração de políticas públicas.
Caso de mulher trans em BH expôs falhas institucionais
Durante o debate, a pesquisadora recordou o caso de Alice Martins Alves, mulher trans de 33 anos que morreu após sofrer agressões em Belo Horizonte, em outubro de 2025.
Alice foi espancada na região da Savassi e chegou a receber atendimento hospitalar, mas acabou morrendo posteriormente devido a uma infecção generalizada causada por uma fratura interna que não foi tratada.
Segundo Anna Tulie, o caso evidencia falhas tanto no sistema de saúde quanto na investigação policial.
De acordo com a pesquisadora, as apurações avançaram somente após um vídeo do pai da vítima, denunciando negligência das instituições, ganhar grande repercussão nas redes sociais.
Parlamento defende políticas de enfrentamento
Durante o evento, foi lida uma mensagem do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Tadeu Leite, que destacou a importância de ampliar políticas de enfrentamento à violência de gênero.
O parlamentar ressaltou que as flores conhecidas como “sempre-vivas”, símbolo da campanha promovida pela Assembleia, representam a resistência das mulheres diante das desigualdades e da violência.
Segundo ele, o combate ao feminicídio exige não apenas a criação de leis, mas também a implementação efetiva de políticas públicas capazes de garantir igualdade de gênero.
Tadeu Leite também lembrou que, em Minas Gerais, uma mulher é morta a cada dois dias, realidade que reforça a urgência de ações concretas para proteger as vítimas.
O presidente da Assembleia destacou ainda que as mulheres negras são as mais afetadas pela violência e ressaltou a importância da participação feminina na política.
De acordo com ele, o Parlamento mineiro possui atualmente a maior bancada feminina de sua história, o que pode contribuir para ampliar o debate e fortalecer iniciativas voltadas à defesa dos direitos das mulheres.
Necessidade de políticas estruturais
Ao final do encontro, especialistas reforçaram que enfrentar o feminicídio exige uma abordagem ampla, que envolva educação, políticas de proteção, combate à misoginia e fortalecimento das redes de apoio às vítimas.
Para os participantes do ciclo de debates, a construção de uma sociedade mais igualitária e segura para as mulheres depende de ações permanentes do poder público e da mobilização da sociedade para romper com estruturas culturais que ainda perpetuam a violência de gênero.


