Treinador argentino avalia que time já incorporou ataques rápidos, mas reconhece dificuldade em dosar posse de bola e ansiedade no último terço
O Atlético tem jogado de um jeito que seu próprio técnico, Eduardo Domínguez, considera mais adequado ao elenco — mas nem por isso isento de novos obstáculos. Em entrevista coletiva concedida no último sábado (16/5), após a vitória sobre o Mirassol por 3 a 1, o comandante argentino fez uma análise detalhada da evolução do time sob seu comando, comparando-a à era do antecessor Jorge Sampaoli. A conclusão: o grupo já entendeu a necessidade de abandonar o controle excessivo da bola em favor de transições ofensivas mais vertiginosas. Porém, justamente esse novo padrão de jogo traz consigo um desafio inédito: conter a ansiedade e saber quando desacelerar.
A herança de Sampaoli e a virada de chave
Sampaoli construiu no Galo uma identidade baseada na posse de bola racional, na ocupação metódica dos espaços e na paciência para construir jogadas. Domínguez, ao assumir, propôs uma mudança radical: menos toques laterais, mais arrancadas em direção ao gol adversário. E, segundo ele, o elenco já assimilou a nova filosofia. “Obviamente, a qualidade individual do Hulk é indiscutível. Mas hoje acho que transformamos algumas fases de mais posse de bola por ataques rápidos. Porque temos os jogadores adequados para atacar rápido. O time entendeu essa mudança”, afirmou.
O treinador destacou o trio ofensivo formado por Bernard, Minda e Cuello como peças-chave nesse novo esquema. “Ter três jogadores explosivos lá na frente te faz ter muita ‘vertigem’, muitos ataques rápidos”, acrescentou. A expressão “vertigem” não foi usada por acaso: Domínguez quer um time que desoriente defesas adversárias com velocidade e imprevisibilidade, algo que considera mais factível com o atual plantel do que tentar reproduzir o modelo sampaolista.
O outro lado da moeda: o novo desafio
Se por um lado a transição tática tem funcionado, por outro Domínguez percebe um sintoma que precisa ser corrigido. Na partida contra o Mirassol, especialmente no primeiro tempo, o Atlético desperdiçou oportunidades claras ao tentar resolver tudo em ações rápidas demais, abandonando a posse de bola em momentos em que seria mais produtivo manter o controle e trocar passes com critério. “Temos que encontrar agora o equilíbrio: quando atacar rápido, quando ter a posse sem nos desesperar. Porque houve muitos momentos em que podíamos controlar melhor a bola, com mais critério – sobretudo no primeiro tempo, me parece que algumas decisões poderiam ter sido melhores no último terço de campo”, analisou o argentino.
A ansiedade ofensiva, segundo ele, é um reflexo quase natural da nova mentalidade implantada. Os jogadores, empolgados com a liberdade para partir para cima, às vezes esquecem de construir a jogada. O próximo passo do trabalho será justamente dosar esses impulsos: atacar rápido quando o adversário estiver desorganizado, mas ter paciência para rodar a bola quando a defesa rival já estiver postada.
Bola parada defensiva ainda preocupa?
Um dos poucos pontos negativos do confronto foi mais um gol sofrido em bola parada — problema crônico que já atormentava o Galo na gestão anterior. Domínguez, no entanto, minimizou o incidente e preferiu exaltar a solidez geral da equipe. “O time mostra maturidade, que está sólido. Mostra que crê no que faz. E isso é o mais importante: se a equipe acredita no que faz e isso se reflete dentro de campo, o torcedor vai para casa muito contente, porque vê um time com confiança, com segurança. Mesmo que tenhamos levado um gol de bola parada, praticamente não sofremos”, pontuou.
A declaração revela que Domínguez não está obcecado por eliminar totalmente os erros, mas sim por construir uma identidade de jogo forte o suficiente para superá-los. E, nesse aspecto, ele venceu uma batalha importante: os jogadores já jogam como ele quer. Agora vem a parte mais sutil — ensinar um time veloz a também ser paciente.



