Wagner Gomes
Escritor
Montes Claros encontrou naquele menino pobre sua vocação sempre pronta para a festa. Ele caminhava pelas ruas como quem recolhe murmúrios. Cada esquina lhe entregava uma história adormecida, cada festa lhe soprava uma verdade, cada madrugada lhe acendia um estalo de estrela. E Theo, generoso, aprendia a escutar antes de falar. Sua vida foi isso: uma travessia. De quem comeu ora-pro-nóbis com angu e depois provou caviar; de Rei do Twist a Príncipe dos Colunistas; de menino curioso a homem que fez do mundo sua morada. Ele se moldou no brilho, na vertigem de ser visto e no assombro de ser querido. Sua história não é emprestada. Entrou na imprensa escrevendo diariamente, e nunca mais parou. Foram seis décadas de jornais, revistas, colunas, madrugadas de tinta, pressa e paixão. O ofício o escolheu e ele aceitou, pagando o preço e colhendo os milagres que só a palavra escrita concede a quem se dedica sem medo. Celebra, também, com orgulho, os quarenta e cinco anos do seu programa na televisão. No primeiro dia em que a TV Montes Claros entrou no ar, lá estava ele, ao vivo, inaugurando uma era com a emissora então filiada à TV Bandeirantes. Mais tarde, caminhou ao lado da Rede Globo quando assumiu a TV Montes Claros. E, por último, encontrou nova casa na TV Gerais, filiada à TV Cultura, onde a tela continuou sendo seu quintal e sua trincheira. Ajudou a erguer uma vida social em Montes Claros, cidade em que o glamour não era luxo, era atitude. Nessa travessia registrada, em parte, no livro Theo: Uma Vida, o menino frágil ergueu-se herói de si mesmo, e seus receios viraram degraus para um futuro que ele ainda não sabia nomear. Ele se reconheceu na sociedade de Montes Claros como um rio que reencontra sua própria nascente. Theo narrou carnavais como quem dançava com o povo, recolheu encontros improváveis e devolveu tudo em palavra acesa, palavra pulsante, palavra que ecoava e estimulava o imaginário popular. Ao seu redor, a cidade entendia que alegria também se herda e que glamour não precisa pedir perdão. No Theo’s House nasceu um território encantado, que fez surgir uma espécie de epifania afetiva. Foi naquele barzinho que a juventude de Montes Claros teve a sua primeira faísca transformadora. Naqueles tempos, a cidade presenciou a amizade-rivalidade com Lazinho Pimenta: dois astros que divergiam por capricho, mas se reencontravam por necessidade, pois sabiam que a cidade só encontrava seu eixo quando ambos brilhavam. Muito cedo a morte levou Lazinho, mas Theo guardou sua saudade como quem protege um retrato dentro do peito. Com o tempo, Theo descobriu que festa também é política. Que o sorriso é chave ancestral que abre portas de gabinete. Nas colunas e nos programas de TV, cobrava estradas, exigia respeito, traduzia as dores e esperanças do Norte de Minas. Sua voz tinha a firme doçura dos que lutam pelo que amam, e o poder o escutava porque sabia que ele falava pela região norte-mineira. A fama o encontrou, mas ele não a deixou erguer muro entre ele e seus leitores. Ibraim Sued o coroou Príncipe dos Colunistas; Drummond o eternizou em uma crônica. Mas o que realmente o sustentava era algo mais simples: o amor por Dona Dina, mãe-terra, mãe-vento, mãe abrigo, mãe-templo. Nela, sua vida encontrava raiz e céu. E há o mistério — aquele segredo guardado no coração da família, que ninguém assume, ninguém nega. Um silêncio que o escritor moçambicano Mia Couto diria ser “uma sombra que deseja ser luz”. Mistério que acrescenta névoa à sua biografia, lembrando que toda vida precisa de um canto intocado para continuar sendo vida. O livro que trouxe ao mundo é mais que narrativa: é tecido de lembranças, flashbacks, retratos antigos, cenas que se encostam umas nas outras como pássaros repousando no último raio de sol que antecede à noite. Nele, o tempo não é linha: é redemoinho. E dentro desse redemoinho, brilha a verdade simples e funda de Theo. Ele não apenas contou a história de Montes Claros. Ele a encantou. Ele a envolveu. Ele a fez possível. Porque enquanto houver festa, memória, música e uma vontade teimosa de futuro, ali estará Theo, misturando euforia com cuidado, sonho com zelo, palavra com luz — como quem descobre que a cidade pulsa no mesmo ritmo do seu próprio coração. Em sua trajetória recebeu diversas homenagens. A última das quais foi prestada pela Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, para coroar seus 60 anos de jornalismo. E ele destacou em seu discurso de agradecimento: “Esta homenagem não me engrandece sozinho. Ela me confirma. E confirma que, quando se trabalha com devoção, a vida devolve em forma de luz”. Para ele, cada amanhecer foi um recomeço, e hoje, sente a mão do tempo lhe roçando como quem diz: “valeu a pena”. Que venham novos começos. Ele continuará ali, firme, celebrando cada ano como se fosse estrear, porque viver e fazer o sonho brilhar sempre será o seu ofício.


