A oferta do ensino médio em tempo integral na rede estadual de ensino voltou ao centro do debate público em Teófilo Otoni, após audiência realizada nesta quarta-feira (29) pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Professores, estudantes e representantes da comunidade escolar reivindicaram a ampliação do ensino em tempo parcial no município, apontando impactos negativos da atual política educacional.
O encontro foi promovido pela Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG e reuniu diversos atores ligados à educação pública. Entre as principais críticas apresentadas está a forma como a expansão do ensino em tempo integral foi implementada, sem, segundo os participantes, diálogo suficiente com a comunidade escolar e sem a devida adequação estrutural das unidades de ensino.
Evasão escolar e necessidade de trabalhar
De acordo com relatos apresentados durante a audiência, a mudança no modelo de ensino tem contribuído para o aumento da evasão escolar, especialmente entre alunos de baixa renda. Muitos estudantes, ao ingressarem no ensino médio, precisam conciliar os estudos com o trabalho para ajudar no sustento familiar — realidade que se torna incompatível com a jornada ampliada do ensino integral.
O professor Sayton Felipe Resende, da Escola Estadual São Sebastião, destacou que a instituição já chegou a atender cerca de 1,2 mil alunos quando funcionava majoritariamente em regime parcial. Atualmente, com a predominância do tempo integral, o número de matriculados caiu para aproximadamente 500 estudantes.
Segundo ele, a redução está diretamente relacionada à impossibilidade de muitos jovens permanecerem na escola em período integral. “As famílias precisam ter o direito de escolher o modelo que melhor se adapta à sua realidade”, defendeu, ao criticar a falta de diálogo com a Superintendência Regional de Ensino (SRE).
Infraestrutura precária e desafios no dia a dia
Outro ponto levantado durante o debate foi a insuficiência da infraestrutura das escolas para atender à nova demanda. Estudantes relataram problemas como falta de ventilação adequada nas salas de aula — especialmente crítica em uma cidade de clima quente como Teófilo Otoni — e estruturas inadequadas para permanência prolongada, como número reduzido de banheiros e chuveiros.
O aluno Yago Oliveira afirmou que as condições atuais dificultam a permanência na escola. “Fica difícil estudar o dia todo sem estrutura adequada”, relatou. A situação foi reforçada por representantes sindicais, que alertaram para o desconforto enfrentado diariamente pelos estudantes.
Além disso, professores também relataram sobrecarga de trabalho, com necessidade de atuação em múltiplos turnos para cumprimento da carga horária, o que impacta diretamente na qualidade do ensino.
Concorrência com programas de incentivo
Outro fator apontado como responsável pela redução no número de alunos nas escolas integrais é o Trilhas do Futuro, iniciativa estadual que oferece cursos técnicos gratuitos e auxílio financeiro mensal aos estudantes. Com um benefício em torno de R$ 400, o programa tem se mostrado mais atrativo para muitos jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade econômica.
Segundo educadores, a ausência de incentivos semelhantes no ensino integral acaba contribuindo para a migração de alunos para outras alternativas educacionais.
Críticas e questionamentos sobre a política educacional
Durante a audiência, também foram levantadas críticas mais amplas à política de expansão do ensino integral. Alguns participantes apontaram receios de que a redução no número de alunos e o esvaziamento das escolas possam abrir caminho para mudanças estruturais na gestão das unidades, incluindo possíveis parcerias com a iniciativa privada.
A coordenadora-geral do Sind-UTE, Denise Romano, destacou que a implementação do modelo precisa considerar as condições reais das escolas e da comunidade atendida.
Cobrança por cumprimento da legislação
A deputada Beatriz Cerqueira, que presidiu a audiência, reforçou que já existe legislação estadual que prevê a coexistência entre ensino integral e parcial. Segundo ela, a norma determina que, ao implantar o ensino integral, o Estado deve manter também a oferta do ensino regular, de acordo com a demanda da comunidade escolar.
“Existe uma lei que garante esse direito, mas ela não está sendo cumprida”, afirmou a parlamentar, ao cobrar providências da Secretaria de Estado de Educação.
Posicionamento do governo
Representantes da rede estadual de ensino apresentaram dados durante a reunião. Segundo a Superintendência Regional de Ensino, o município conta atualmente com 21 escolas que oferecem ensino médio, sendo nove em tempo integral, cinco com opção parcial no período noturno e 12 com ensino regular.
A Secretaria de Estado de Educação informou que irá avaliar as demandas apresentadas, especialmente no que diz respeito ao diálogo com a comunidade escolar. Também foi destacado que o planejamento da oferta educacional contou com a participação de representantes locais.
Prazo para resposta
Ao final da audiência, a deputada Beatriz Cerqueira estabeleceu prazo até o dia 30 de junho para que o governo estadual apresente um posicionamento oficial sobre as reivindicações da comunidade.
O debate evidencia um desafio recorrente na educação pública: equilibrar políticas de ampliação da jornada escolar com as condições socioeconômicas dos estudantes e a capacidade estrutural das escolas. Em regiões como o Vale do Mucuri, onde muitos jovens enfrentam dificuldades financeiras, a flexibilização da oferta educacional aparece como demanda urgente para garantir o acesso e a permanência na escola.



