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Segurança no trânsito começa antes do acidente: o que os dados revelam sobre o comportamento dos motoristas - Rede Gazeta de Comunicação

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Segurança no trânsito começa antes do acidente: o que os dados revelam sobre o comportamento dos motoristas

Paulo Buriti

Gerente corporativo da Corpvs

Durante muito tempo, a tecnologia aplicada às frotas esteve associada principalmente a uma pergunta: onde está o veículo? Saber sua localização era fundamental para a gestão operacional, para a proteção do patrimônio e para a resposta a ocorrências. Mas essa lógica já não é suficiente para os desafios atuais da segurança no trânsito.

A pergunta mais importante deixou de ser apenas onde está o veículo e passou a ser: o que está acontecendo antes que um acidente aconteça?

Essa mudança parece sutil, mas representa uma transformação profunda na forma como as empresas podem lidar com a segurança de motoristas profissionais. Câmeras, sensores, telemetria e sistemas de análise de dados ampliaram a capacidade de observar não apenas o deslocamento de uma frota, mas também os padrões de comportamento que aumentam a exposição ao risco.

Um levantamento recente da Localiza, baseado em dados de 650 milhões de quilômetros rodados por frotas corporativas brasileiras, reforça essa discussão. A análise, que reuniu informações de mais de mil operações monitoradas no país, apontou que a gravidade dos eventos está mais relacionada à forma como o veículo é conduzido do que simplesmente à distância percorrida. O excesso de velocidade, por exemplo, aparece entre os comportamentos mais associados às ocorrências críticas.

Esse tipo de informação ajuda a mostrar por que a segurança viária precisa ser tratada de maneira diferente pelas empresas. O acidente não começa no momento da colisão. Em muitos casos, ele é precedido por uma sequência de comportamentos, decisões e condições que podem ser identificadas antes que a ocorrência se concretize.

Distração, fadiga, velocidade incompatível com a via, distância inadequada de outros veículos e outros comportamentos de risco deixam sinais. A grande transformação tecnológica está justamente na possibilidade de transformar esses sinais em informação útil para a prevenção. Mas existe um ponto importante nessa discussão: a tecnologia, sozinha, não torna uma operação mais segura.

Uma câmera que apenas registra imagens após um acidente continua sendo uma ferramenta reativa. Um sistema que apenas aponta infrações também tem alcance limitado se os dados não forem utilizados para compreender por que determinados comportamentos acontecem e como eles podem ser modificados.

A evolução mais relevante do monitoramento de frotas está, portanto, na mudança de propósito. Não se trata apenas de descobrir quem errou. Trata-se de entender as circunstâncias que aumentam o risco e criar condições para que aquele erro não evolua para uma consequência mais grave.

Essa diferença é especialmente importante quando colocamos o motorista no centro da discussão.

Profissionais que passam horas ao volante convivem diariamente com pressão por produtividade, condições adversas de trânsito, jornadas extensas e situações que exigem atenção constante. Olhar exclusivamente para um evento isolado pode levar empresas a respostas simplistas e pouco efetivas. Já a análise de padrões permite uma atuação mais inteligente.

Se uma empresa identifica recorrência de determinados comportamentos em horários, trajetos ou contextos específicos, por exemplo, pode investigar as causas e desenvolver ações direcionadas. Pode ser necessário reforçar treinamentos, rever rotas, ajustar processos operacionais ou criar mecanismos de alerta que ajudem o próprio motorista a perceber situações de risco antes que elas se agravem.

É nesse ponto que os dados deixam de ser apenas instrumentos de controle e passam a ser ferramentas de cuidado. A tecnologia pode, e deve, ajudar empresas a construir uma cultura de segurança mais preventiva. Isso exige, porém, que o monitoramento seja acompanhado de análise, educação e diálogo. Punir sem compreender o contexto não transforma comportamento. Informar, orientar e trabalhar continuamente os riscos têm potencial muito maior para produzir mudanças duradouras.

Essa discussão também amplia o próprio conceito de responsabilidade das empresas. Quando uma organização gerencia uma frota, ela não administra apenas veículos. Ela administra pessoas que circulam diariamente em um ambiente complexo e compartilhado com outros motoristas, pedestres e comunidades.

Por isso, a segurança viária precisa deixar de ser vista apenas como uma questão operacional ou como um item da gestão de riscos. Ela deve fazer parte da estratégia das empresas.

O avanço da tecnologia nos permite antecipar situações que antes só eram analisadas após uma ocorrência. Hoje, já é possível identificar sinais de distração, fadiga e outros comportamentos de risco, compreender padrões de condução e agir preventivamente.

Mas o maior valor dessa evolução não está na quantidade de dados coletados. Está na qualidade das decisões que conseguimos tomar a partir deles. A tecnologia nos dá a possibilidade de enxergar melhor. Cabe às empresas decidir o que fazer com aquilo que enxergam.

Na segurança do trânsito, essa escolha pode representar a diferença entre usar os dados para explicar um acidente depois que ele aconteceu ou utilizá-los para criar condições que ajudem a evitar que ele aconteça. E essa, talvez, seja a principal mudança de paradigma que precisamos construir: a melhor investigação de um acidente é aquela que, com inteligência, conseguimos não precisar realizar.