Pesquisa com 1.478 mulheres de 12 países latino-americanos aponta sintomas importantes ainda durante ciclos menstruais regulares e reforça a necessidade de reconhecer precocemente as mudanças da transição hormonal
A mulher continua menstruando, mas começa a dormir mal, sente ondas de calor, percebe mudanças de humor e tem dificuldade para se concentrar. Em alguns casos, surgem dores articulares, cansaço persistente e alterações na libido. Embora esses sinais possam ser associados ao estresse e à rotina intensa, também podem estar relacionados à perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa.
Um estudo publicado em setembro, com dados de 1.478 mulheres de 40 a 54 anos, de 12 países da América Latina, chama a atenção para uma questão que ainda gera dúvidas: os sintomas associados à transição menopausal podem aparecer antes de a menstruação desaparecer e até mesmo quando os ciclos continuam regulares.
O resultado reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre essa etapa da vida feminina, que pode afetar o sono, o bem-estar emocional, a disposição e o desempenho profissional.
A menopausa não começa necessariamente com o fim da menstruação
A menopausa é definida retrospectivamente após 12 meses consecutivos sem menstruação, desde que não exista outra causa para a ausência do ciclo. Antes desse marco, a mulher pode atravessar a perimenopausa, período marcado por oscilações hormonais e mudanças progressivas no funcionamento do organismo.
É nessa fase que podem surgir sintomas variados, nem sempre reconhecidos como parte de uma mesma condição. Alterações do sono, irritabilidade, dificuldade de concentração, falhas de memória, palpitações, dores musculares e articulares e redução do desejo sexual estão entre as manifestações relatadas por mulheres nessa etapa.
Segundo o médico Arthur Victor de Carvalho, especialista em menopausa, lipedema e hormônios, a ideia de que a transição só começa quando a menstruação termina pode atrasar a procura por orientação profissional.
A ausência de alterações menstruais evidentes, portanto, não deve ser interpretada como garantia de que os sintomas não tenham relação com a transição hormonal.
Ondas de calor não são o único sinal
Quando o assunto é menopausa, os fogachos — episódios repentinos de calor — costumam ser os sintomas mais lembrados. No entanto, a experiência pode envolver mudanças menos evidentes, como insônia, ansiedade, oscilação de humor, dificuldade para manter a atenção e desconforto durante as relações sexuais em razão do ressecamento vaginal.
Essas manifestações também podem ter outras causas. Por isso, nem todo cansaço ou problema de memória depois dos 40 anos deve ser atribuído aos hormônios. Alterações da tireoide, anemia, distúrbios do sono e condições de saúde mental, por exemplo, podem produzir sintomas semelhantes e precisam ser considerados na avaliação clínica.
O estudo latino-americano também chama a atenção para os possíveis impactos na qualidade de vida e na satisfação profissional, reforçando a necessidade de reconhecer os sintomas e investigar suas causas.
Saúde, trabalho e rotina sob pressão
A transição menopausal pode coincidir com uma fase de grandes responsabilidades. Muitas mulheres estão no auge da carreira, cuidam dos filhos, acompanham o envelhecimento dos pais e administram tarefas domésticas enquanto enfrentam mudanças físicas e emocionais.
Quando os sintomas não são compreendidos, existe o risco de que sejam interpretados como falta de competência, perda de produtividade ou consequência inevitável do envelhecimento. Reconhecer o que está acontecendo ajuda a buscar acompanhamento e alternativas para melhorar a qualidade de vida.
Quando procurar orientação médica
Mulheres que percebem mudanças persistentes no sono, no humor, na concentração, no ciclo menstrual ou na disposição devem conversar com um profissional de saúde, mesmo que continuem menstruando.
A avaliação considera a idade, os sintomas, o histórico clínico e as mudanças no padrão menstrual. Em mulheres com mais de 45 anos, a identificação da perimenopausa frequentemente é feita pela avaliação clínica, sem necessidade de exames hormonais de rotina em todos os casos.
Também é importante investigar sangramentos muito intensos, persistentes ou fora do padrão habitual, em vez de atribuí-los automaticamente à idade.
O tratamento depende das necessidades de cada mulher e pode incluir medidas para melhorar o sono, atividade física, mudanças de hábitos e terapias específicas. A reposição hormonal pode ser uma opção para algumas pacientes, mas exige avaliação individualizada dos benefícios, riscos, contraindicações e alternativas disponíveis.
A principal mensagem é que não é necessário esperar a última menstruação para buscar ajuda. Entender as mudanças do corpo e procurar orientação adequada são passos importantes para atravessar essa fase com mais informação, cuidado e qualidade de vida.


