Projeto aproxima pequenos produtores, agroextrativistas e empreendedores de novos mercados e valoriza ingredientes como pequi, baru, buriti, umbu e coquinho-azedo
O pequi que nasce no Cerrado, o baru, o buriti, o umbu, o coquinho-azedo e outros frutos nativos estão deixando de ocupar apenas o lugar de ingredientes tradicionais da cozinha do Norte de Minas para ganhar espaço como produtos com potencial de mercado. Em Montes Claros, o projeto Sabores do Gerais vem trabalhando para aproximar pequenos produtores, agroextrativistas, cooperativas e empreendedores de consumidores e novos canais de comercialização.
A iniciativa está ligada ao Arranjo Produtivo Local (APL) do Pequi e Frutos do Cerrado, cadeia que reúne produtores e empreendimentos de diferentes municípios da região. A proposta é agregar valor à produção, estimular a comercialização de produtos beneficiados e ampliar o reconhecimento da gastronomia geraizeira como parte da identidade econômica e cultural do território.
Mais do que divulgar ingredientes, o projeto trabalha com a ideia de transformar a biodiversidade regional em oportunidade de geração de renda. Entre os produtos que já chegaram ao mercado estão farinhas saborizadas com pequi, buriti e jatobá, conservas de pequi, doces de frutas nativas, castanhas de pequi e baru, barrinhas produzidas com frutos do Cerrado, geleias, cafés e outros alimentos elaborados por cooperativas e pequenos empreendimentos.
Do fruto ao produto
Um dos desafios da cadeia é fazer com que matérias-primas conhecidas regionalmente cheguem ao consumidor em formatos diversificados. O pequi, por exemplo, pode aparecer não apenas no tradicional arroz, mas também em conservas, farinhas, óleos, castanhas e preparações gastronômicas.

Essa transformação amplia as possibilidades de comercialização e permite que produtos sazonais tenham maior presença no mercado. O mesmo ocorre com frutos como baru, buriti, umbu, tamarindo, mangaba e coquinho-azedo, que podem ser utilizados em doces, geleias, bebidas, farinhas e outras preparações.
A experiência do Sabores do Gerais também tem aproximado produtores da gastronomia profissional. Em ações desenvolvidas pelo projeto, chefs e consultores trabalharam com bares e restaurantes para desenvolver receitas utilizando ingredientes do Cerrado e da cozinha regional. A proposta é estimular a presença desses produtos nos cardápios e criar novas formas de consumo.
Gastronomia como identidade
A cozinha geraizeira reúne ingredientes, técnicas e conhecimentos transmitidos entre gerações. Carne de sol, requeijão moreno, pequi, frutos nativos e outros produtos tradicionais formam uma culinária marcada pela relação entre o sertanejo e o território.
Em 2026, o projeto realizou o Festival Gastronômico Sabores do Gerais, que reuniu restaurantes, produtores e empreendedores em torno da culinária regional. Durante a programação, pratos preparados com ingredientes do Cerrado foram apresentados ao público, ao lado de oficinas, atrações culturais e atividades voltadas ao empreendedorismo.
O projeto também trabalha na preservação e divulgação desse patrimônio alimentar. Uma das iniciativas anunciadas é a criação do Centro de Referência do Cerrado e das Tradições Geraizeiras, previsto para funcionar no antigo Armazém da Estação Ferroviária de Montes Claros. A proposta é criar um espaço dedicado à memória, à cultura, aos saberes e aos sabores do Gerais.
Mercado além da região
A estratégia não se limita ao consumidor regional. A participação dos empreendimentos em eventos e ações comerciais tem como uma das finalidades abrir portas para novos mercados, inclusive fora de Minas Gerais.
Em experiências anteriores, produtores ligados ao APL apresentaram produtos a compradores e ao público de diferentes regiões, enquanto iniciativas de capacitação e discussões sobre exportação passaram a integrar a agenda do projeto. A intenção é criar condições para que os produtos do Cerrado alcancem novos consumidores sem perder a relação com o território de origem.
O Governo de Minas também mantém ações de apoio à cadeia dos frutos nativos do Cerrado por meio do Programa Pró-Pequi. Dados oficiais apontam investimentos em capacitação, assistência técnica e apoio à produção e comercialização, incluindo iniciativas voltadas a agroextrativistas e empreendimentos da agricultura familiar.
Em Montes Claros, o Sabores do Gerais atua justamente nesse ponto de encontro entre tradição e mercado. A proposta é fazer com que o fruto colhido no Cerrado, o conhecimento de quem produz e a criatividade de quem cozinha possam formar uma cadeia de valor capaz de gerar renda, preservar saberes e ampliar o reconhecimento da gastronomia norte-mineira.
Mais do que colocar o pequi e outros frutos nativos na mesa, o projeto busca transformar aquilo que o território oferece em identidade, produto e oportunidade. É uma maneira de fazer a cozinha geraizeira ultrapassar as fronteiras da tradição doméstica e ocupar espaços cada vez maiores na economia, na gastronomia e no turismo do Norte de Minas.


