Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Entrei no meu quarto secreto esses dias.
A culpa foi da série Me Abrace. Aquela cena em que cada um encontra o próprio “eu adolescente”, simbolizado por uma árvore, num parque. E ali… conversa. E ali… escuta o convite: me abrace.
Não sei se abracei.
Mas me vi.
Voltei pra República.
E hoje eu entendo: morar em República não era só dividir aluguel. Era aprender a caber no mundo dos outros — sem sair do seu.
Tinha a que acordava inspirada, vassoura na mão, pronta pra organizar a vida às sete da manhã. E tinha o coro, ainda meio dormindo:
— Atingiu ontem.
Tinha os mexidões da madrugada. A gente voltava da faculdade com fome de mundo e de comida. E como mexido de República é bom…
Mas sempre tinha a guardiã dos ovos:
— Mais de dois é abuso.
E a gente ria. E colocava assim mesmo. Ou não.
O apartamento era de esquina. Frente plana, lateral em subida. O meu quarto… quase um porão com janela. Cheiro de mofo e pertencimento. Entrei por último — peguei o que sobrou. E, curiosamente, talvez tenha sido o que mais me coube.
Em frente, a República dos meninos. A deles parecia melhor. A nossa… era mais história.
E tinha as visitas.
Uma delas chegava e contava tudo. Mas tudo mesmo. Nos mínimos detalhes.
Num desses relatos, alguém perguntou, direta:
— E aí… ele gozou?
Silêncio.
— Que isso, não era hora de ninguém debochar!
Mais silêncio.
Até que alguém insistiu:
— Mas você sentiu alguma coisa?
E ela, com toda convicção do mundo:
— Senti. A ponta do meu sapato estufou.
A gargalhada atravessou o prédio.
Dias depois, alguém entra com um daqueles sapatinhos de ferro, bico enrolado, peça de decoração. Levanta no ar e decreta:
— Símbolo fálico de fulana.
E a República inteira vira riso.
Hoje, olhando daqui, eu vejo:
cada uma era de um jeito. De verdade. Sem filtro, sem manual, sem legenda.
E, no meio disso tudo, a gente ia aprendendo.
No susto. No riso. No limite do outro.
Talvez tenha sido ali — entre o mofo do quarto, os ovos contados e as gargalhadas atravessadas —
que eu comecei a entender: conviver também é uma forma de diversidade.
Não com uma árvore no parque.
Mas com um pedaço de mim que ficou lá, quieto… esperando.
E que, agora, quando eu volto,
já não pede explicação.
Só diz:
me abraça.



