PAULA PEREIRA
A Reforma Tributária brasileira, aprovada pelo Congresso Nacional por meio da Emenda Constitucional nº 132, ainda está em fase de transição, mas seus efeitos já são sentidos de maneira concreta desde o início de 2026. Mesmo com a cobrança plena dos novos tributos prevista para ocorrer gradualmente entre 2027 e 2033, contadores, produtores rurais e empresas do agronegócio já enfrentam mudanças significativas na rotina administrativa, na formação de preços e na organização fiscal.
A promessa de simplificação tributária, com a substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos impostos sobre o consumo — a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) — trouxe também um período de convivência entre o sistema antigo e o novo. É justamente essa fase de transição que tem provocado ajustes imediatos no dia a dia do setor produtivo.

O Senador Carlos Viana afirma que:“A Reforma Tributária que aprovamos — e eu votei favoravelmente — não é a ideal, mas foi a possível dentro do cenário político que enfrentamos. Essa é uma discussão que se arrasta há mais de 20 anos no Brasil, e sempre encontrou muitas dificuldades, principalmente pela resistência dos estados em relação à redução das alíquotas do ICMS.
O modelo aprovado criou um IVA brasileiro que ficou estimado em torno de 26%, o que de fato é uma das alíquotas mais altas do mundo. Ainda assim, representa um avanço, porque é cerca de oito pontos percentuais menor do que a carga média atual, que gira entre 34% e 35% em vários setores. Agora teremos um teto entre 26% e 26,5%, o que traz mais previsibilidade. Poderíamos ter avançado mais na redução da carga de forma homogênea, para facilitar a vida de quem produz e gera renda, mas foi o consenso possível dentro da realidade do Congresso.”
Novas exigências nas notas fiscais já são realidade
Desde 1º de janeiro de 2026, a emissão de notas fiscais eletrônicas passou a exigir a inclusão de campos específicos para os novos tributos CBS e IBS. Ainda que as alíquotas iniciais estejam em fase de teste — com percentuais reduzidos e sem cobrança efetiva integral — o preenchimento correto tornou-se obrigatório.
Na prática, isso significa que:
Notas emitidas sem os novos códigos podem ser rejeitadas pelo sistema;
Empresas compradoras exigem regularidade para manter contratos;
Há risco de bloqueio de comercialização em caso de erro.
Contadores relatam aumento no volume de atendimentos relacionados a ajustes em cadastros, parametrização de sistemas e treinamento de equipes. Para o produtor rural, especialmente o pequeno e médio, a adaptação tem exigido maior proximidade com o escritório contábil e atenção redobrada aos detalhes fiscais.
O impacto é direto: quem não se adequa pode simplesmente deixar de vender.
Escritórios contábeis enfrentam aumento de complexidade
A convivência temporária entre dois modelos tributários elevou o nível de complexidade operacional. Escritórios contábeis estão:
Atualizando softwares e plataformas de gestão;
Reconfigurando sistemas de Nota Fiscal Eletrônica;
Revisando classificação fiscal de produtos e serviços;
Investindo em capacitação técnica sobre CBS e IBS.
Além disso, há um crescimento na demanda por simulações tributárias e planejamento de transição até 2033. Muitos produtores têm procurado orientação para entender se devem migrar de pessoa física para pessoa jurídica, optar por regimes como Lucro Presumido ou reorganizar a estrutura da propriedade.
O resultado é aumento de honorários contábeis e maior custo administrativo fixo para quem produz.
Produtor rural precisa reorganizar a gestão
No campo, as mudanças vão além do preenchimento da nota fiscal. O novo modelo prevê maior rigor no controle de créditos tributários. Compras de fertilizantes, sementes, defensivos e máquinas podem gerar créditos que deverão ser devidamente registrados para compensação futura.
Isso exige:
Controle mais detalhado de entradas e saídas;
Organização documental mais rígida;
Revisão cadastral e, em alguns casos, abertura de CNPJ.
Produtores que antes operavam com estrutura simplificada estão revendo sua formalização. Em determinadas cadeias produtivas, compradores já demonstram preferência por negociar com fornecedores que possuam estrutura jurídica mais organizada, o que pode influenciar diretamente na competitividade.
Mercado já recalcula preços e contratos
Mesmo antes da definição final das alíquotas definitivas, o mercado começou a se antecipar. Empresas do agronegócio, cooperativas e exportadoras já avaliam possíveis impactos futuros na carga tributária e ajustam seus contratos.
Entre os movimentos observados estão:
Inclusão de cláusulas de adaptação tributária em contratos futuros;
Simulações de impacto da CBS e IBS sobre insumos;
Ajustes preventivos na formação de preços;
Planejamento financeiro mais conservador.
Produtores de grãos, por exemplo, já simulam o impacto da nova tributação sobre fertilizantes e defensivos para evitar perda de margem no médio prazo. Em alguns casos, optam por reduzir a margem agora para manter competitividade e evitar repasses bruscos no futuro.
Cooperativas elevam nível de exigência fiscal
Em algumas regiões, cooperativas passaram a exigir que as notas fiscais sejam emitidas com os novos campos corretamente preenchidos. Notas com erros ou ausência de informação têm sido rejeitadas.
Esse movimento reforça uma tendência de profissionalização do setor. A formalização passa a ser diferencial competitivo. Produtores organizados ganham vantagem; os desestruturados podem perder espaço, ainda que temporariamente.
Efeito psicológico e decisões estratégicas
A reforma também provoca um impacto menos visível, mas igualmente relevante: a insegurança tributária. A indefinição sobre alíquotas finais e regras complementares leva produtores a:
Adiar investimentos;
Reavaliar expansão da atividade;
Buscar maior governança e formalização;
Consultar especialistas antes de fechar negócios.
Instituições financeiras já analisam com mais atenção a estrutura fiscal das propriedades na concessão de crédito rural, considerando o novo cenário tributário.
Resumo dos impactos já sentidos
Contadores
Atualização de sistemas, aumento de carga de trabalho, treinamento técnico e maior demanda por planejamento tributário.

Para Charles Caldeira Veloso, contador, “A Reforma Tributária já está trazendo impactos práticos no dia a dia, mesmo antes da cobrança total dos novos impostos. Desde o início de 2026, contadores precisam se adaptar às novas exigências na emissão de notas fiscais com os campos da CBS e do IBS, o que aumentou a necessidade de organização, atualização de sistemas e acompanhamento mais próximo da parte contábil. O momento é de atenção e planejamento. Será fundamental controlar melhor documentos, créditos tributários e avaliar se a estrutura atual da atividade ainda é a mais adequada. Quem se organizar agora tende a enfrentar menos dificuldades e poderá até ganhar competitividade no mercado.”
Produtores rurais
Adequação obrigatória na emissão de notas com CBS e IBS, organização de créditos fiscais, revisão cadastral e jurídica, aumento de custos administrativos.

“Embora a simplificação seja um benefício esperado da reforma tributária, o setor agropecuário acompanha o tema com cautela. Há preocupação legítima com o possível aumento de custos ao longo da cadeia produtiva e com a complexidade burocrática que pode marcar o período de transição. O agro trabalha com margens sensíveis e alta dependência de previsibilidade. Por isso, é fundamental que a regulamentação preserve a competitividade do campo e evite impactos que possam chegar ao consumidor final.” Enfatiza Osvaldo Miranda Jr, diretor financeiro Sociedade Rural de Montes Claros
Mercado
Planejamento financeiro antecipado, revisão de preços, ajustes contratuais e maior procura por consultoria especializada.
Transição que já redefine o jogo
Embora a cobrança integral dos novos tributos ainda esteja em construção e seja gradual até 2033, o impacto da Reforma Tributária já é concreto, administrativo e estratégico. A fase de transição está redefinindo práticas comerciais, exigindo profissionalização e alterando a dinâmica de negociação no agronegócio.
Especialistas apontam que o produtor que se organizar desde já tende a conquistar vantagem competitiva no novo ambiente tributário. Por outro lado, quem ignorar as mudanças pode enfrentar rejeição de notas, perda de mercado, multas e redução de margem.
A reforma ainda não está completa — mas seus efeitos já começaram.


