Adelaide Valle Pires
Psicóloga por formação, arqueóloga de coração
Era pra ser só uma série leve pra relaxar.
Uma xícara de chá, um sofá e uma protagonista simpática.
Mas bastaram dois episódios para eu perceber que não era só entretenimento — era uma verdadeira aula.
Dear Hyeri me fisgou.
A princípio, parecia falar de relacionamentos — e falava.
Mas não apenas do amor entre um casal, e sim daquele tipo de relação que a gente tenta costurar com o mundo, com a família, com o passado… e, principalmente, com a gente mesmo.
A protagonista, ferida pelo desaparecimento da irmã e pelos destroços deixados por um relacionamento longo, tenta manter a aparência de normalidade. Mas dentro dela algo se parte, se divide, se protege — nasce a Hyeri.
E então entendo: há momentos em que o nosso próprio nome precisa ser reescrito pra que a alma consiga respirar.
Talvez o que mais me tocou nesse relacionamento foi o silêncio entre os dois.
Ela parecia ver o casamento como o ponto de chegada, o “felizes para sempre” das historinhas.
Ele, criado pela avó e cercado de responsabilidades, via o casamento como um fardo que não queria dividir.
Acreditava, talvez sem perceber, que amar era poupar o outro do peso que se carrega — e assim, calou o que sentia.
Faltou diálogo, sobrou dedução.
E, como acontece tantas vezes na vida real, o amor se perdeu não por falta de sentimento, mas por falta de comunicação.
Fui lembrando da pergunta do livro Uma pergunta por dia — um gatilho que me levou a responder, em meu livro Arena da Comunicação, a questão: “De quem eu sinto falta neste momento?”
Talvez a resposta nem sempre esteja do lado de fora. Às vezes, sentimos falta de uma parte de nós que ficou esquecida num canto do tempo, sem abraço nem voz.
A série fala sobre isso — sobre reconciliação.
Sobre entender que felicidade não é ausência de dor,
mas o reencontro das partes que a dor separou.
E aí o título ganha outro sentido:
“Para minha Hyeri” — uma carta escrita à parte da gente que se perdeu, que precisa de atenção, que implora pra ser reconhecida e amada.
Um lembrete de que toda cura emocional começa quando voltamos a nos ouvir.
E no meio desse mergulho, lembrei do filme Poder além da vida, quando Sócrates pergunta ao atleta:
“Você é feliz?”
A condução da resposta passa por ter dinheiro, fama e medalhas…
Mas vem a nova pergunta:
“Se tem tudo isso, por que não consegue dormir?”
A mesma pergunta que Hyeri parecia fazer a si mesma — e que, sinceramente, talvez todos nós precisemos repetir de vez em quando.
Porque a pergunta certa não é “o que é felicidade?”,
mas “qual parte de mim ainda precisa acordar para vivê-la?”
Arena da Vida – Diálogos do Cotidiano


