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Quando o tempo fecha - Rede Gazeta de Comunicação

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Quando o tempo fecha

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Hoje, 14 de outubro, é Dia do Meteorologista. Profissionais que observam a atmosfera, analisam seus sinais e procuram antecipar as condições do tempo. E fiquei pensando: se existisse um serviço de meteorologia para os relacionamentos humanos, como seria o boletim de hoje?

Chuvas intensas, trovoadas, ventos fortes e possibilidade de tempestades provocadas por divergências de opinião.

Por aqui, o tempo anda meio fechado. E não estou falando só do céu, não!

Fiquei pensando nisso e me lembrei de uma antiga relação conflituosa que tive com a balança.

Em algumas épocas, fiz regime e emagreci bastante. Havia quem comentasse: “Nossa, você emagreceu, hein!” Eu ia ao espelho e continuava me vendo com excesso de peso. Em outras ocasiões, ouvia que estava gorda demais. Olhava para mim e não me sentia o monstro que pareciam pintar diante de mim.

A balança mostrava uma coisa, as pessoas percebiam outra, e meu espelho particular insistia em apresentar a sua própria versão dos fatos.

Demorei a perceber que nem sempre enxergamos a nós mesmos da mesma maneira que os outros nos enxergam.

E não é que essa história do espelho serve para muita coisa?

Serve para o corpo, mas também para o bolso, para o trabalho, para as mudanças de cidade, para os relacionamentos e para tantas situações em que a vida muda de cenário, mas a imagem que construímos de nós mesmos continua no mesmo lugar.

O problema começa quando a realidade bate à porta e não encontra ninguém disposto a atendê-la.

A conta chega, o orçamento aperta, o relacionamento muda, o trabalho deixa de oferecer o que oferecia. Mas, em vez de abrir a porta e olhar o que está acontecendo, a gente corre para fechar as janelas, procura um culpado e torce para a tempestade passar.

Convenhamos: é muito mais confortável culpar o vento do que admitir que deixamos a janela aberta.

E assim vamos acumulando nuvens. Cada um defendendo sua própria previsão, com direito a trovões, raios e alertas de tempestade.

No meio disso tudo, fica uma pergunta: o que acontece quando a realidade que encontramos não combina com a imagem que construímos de nós mesmos?

Às vezes, o tempo fecha.

Fecham-se os ouvidos, fecham-se as portas, fecham-se as possibilidades de conversa. O outro deixa de ser alguém com quem podemos aprender e passa a ser alguém que precisamos convencer, corrigir ou derrotar.

Mas meteorologia não é torcida. Não adianta decretar sol quando o céu está carregado. E nenhuma discussão faz a chuva parar só porque alguém tem certeza de que não deveria estar chovendo.

Reconhecer o tempo que faz não significa gostar dele. Significa olhar pela janela, perceber o cenário e decidir o que fazer com as condições que temos.

Na vida, não é diferente.

Nem sempre escolhemos as mudanças que chegam, mas podemos escolher como reagir a elas. Podemos rever nossas certezas, assumir nossa parte e abrir espaço para uma conversa sem transformar cada divergência em temporal.

E, quando o espelho não mostrar a imagem que gostaríamos de ver, vale respirar antes de quebrá-lo. Vai que o problema não está no espelho!

Enquanto isso, sigo torcendo para que a gente aprenda a consultar mais a própria consciência e menos o serviço de culpados.

Porque chuva faz parte da vida. Trovoada também.

O perigo é se acostumar tanto com o tempo fechado que a gente passe a acreditar que o sol deixou de existir.