Psicóloga por formação, arqueóloga de coração.
Outro dia, numa conversa que avançava pela noite, alguém me disse quase como quem confessa:
— Eu não consigo dormir.
Não era novidade. A insônia tem esse jeito de reaparecer quando as luzes se apagam. Ela chega no silêncio, quando o mundo diminui de volume e a gente fica maior por dentro.
Fiquei pensando: será que a insônia é mesmo falta de sono?
Ou será excesso de pensamento?
Há pessoas que só conseguem adormecer quando o dia começa a clarear. Quando o primeiro ônibus passa, o padeiro levanta a porta, o sol avisa que a vida está acordando. É curioso… a noite assusta, mas a manhã acalma. Como se o corpo dissesse: agora não estou mais sozinho.
Já vivi isso bem de perto. Houve um tempo em que dormir ao amanhecer virou regra e acordar cedo parecia impossível. Não era preguiça. Era sobrevivência. O relógio virou cúmplice do medo: medo do silêncio, medo do escuro, medo de passar mal, medo de não dar conta… medo de morrer enquanto o mundo dorme.
Talvez a insônia seja isso:
um disfarce elegante do medo.
E aí a gente tenta resolver do jeito que dá. Um comprimido aqui, outro ali. Dorme… mas não descansa. Apaga… mas não sonha. Porque o remédio silencia o sintoma, mas não conversa com a causa.
Foi assim que um dia inventei um outro tipo de remédio. Um remédio-poema, um remédio musical: TRAMASOL.
Não vem em miligramas, vem em escuta, em escolhas.
Sua fórmula é simples e profunda:
T de tristeza que pede colo,
R de raiva que pede nome,
A de alegria que anda esquecida,
M de medo — esse que costuma se esconder na madrugada,
A de afeto, amor e sol… energia que ilumina e cura.
Talvez antes de perguntar “o que eu tomo para dormir?”, a pergunta mais honesta seja:
“o que está me tirando o sono?”
A insônia não grita. Ela cochicha.
E costuma dizer coisas como:
— tem algo aqui que ainda não foi cuidado.
Dormir também é confiar.
É acreditar que o mundo continua mesmo quando fechamos os olhos.
E isso, às vezes, precisa ser reaprendido.
Se o seu sono anda difícil, talvez não falte remédio.
Talvez falte luz.
Luz de conversa.
Luz de afeto.
Luz de coragem para olhar o medo sem apagar a si mesmo.
Porque quando a causa é acolhida, o sono vem.
Sem forçar.
Sem lutar.
Como quem finalmente se sente seguro para descansar.


