Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Não sei exatamente quando aconteceu. Reencontrei o Recruta Zero e, depois, comecei a lembrar do Salsicha e do Scooby-Doo. Vieram a Mônica, o Cebolinha, o Cascão, o Obelix… Quando percebi, minha infância inteira estava chegando para uma gincana. Não uma gincana qualquer, mas um campeonato!
E, como todo bom campeonato, começou pela formação das equipes. Mônica olhou para Obelix e não teve dúvida:
— Você vem comigo!
Obelix nem perguntou qual era a prova.
— Desde que tenha comida depois…
Mônica revirou os olhos e encerrou a conversa:
— Depois a gente conversa.
Na outra equipe estavam Salsicha, Scooby-Doo e Magali. Uma combinação perigosa! Antes mesmo de começar a primeira prova, os três já procuravam a mesa do lanche.
— Scooby, você viu onde colocaram os sanduíches?
— Ranhum!
Magali já tinha encontrado. Salsicha olhou para ela e balançou a cabeça:
— Scooby-Dooby-Doo!
Era uma equipe que conhecia muito bem duas coisas: o medo e a fome. E, por isso mesmo, conhecia também a arte de continuar, mesmo quando a vontade era sair correndo.
Recruta Zero apareceu acompanhado de Cebolinha e Cascão. Pareciam ter passado horas planejando a estratégia.
— Qual é a primeira prova? — perguntei.
Zero respondeu:
— Não sei.
Cebolinha completou:
— E nem precisamos saber.
Cascão concordou. Os três tinham chegado a uma conclusão brilhante: se ninguém soubesse exatamente o que deveria fazer, ninguém poderia cobrar que fizessem. Achei a estratégia bastante sofisticada.
Então chegaram os Flintstones: Fred, Wilma, Pedrita, Barney, Betty e Bambam. Vieram juntos, como sempre. Fred abriu os braços e anunciou:
— Yabadabadoo!
Wilma vinha logo atrás, seguida por Barney e Betty, enquanto Pedrita corria para Bambam. Os dois já pareciam prontos para transformar o campeonato em mais uma aventura daquela grande família.
Olhei para aquela turma e pensei:
— Pronto! Agora sim, a família está completa.
Só faltava alguém para organizar aquela bagunça. Foi quando apareceu o Sargento Tainha, sozinho.
— E sua equipe? — perguntei.
Ele respondeu, indignado:
— Não preciso de equipe! Eu comando!
Olhei para os outros, mas ninguém pareceu surpreso.
Foi quando Jeannie apareceu com sua tradicional piscadinha. Samantha chegou logo depois, mexendo o nariz. Uma percebia o que estava acontecendo; a outra farejava o que estava prestes a acontecer. As duas foram escolhidas como juradas.
— Mas quais serão os critérios? — perguntei.
Jeannie piscou. Samantha mexeu o nariz. Entendi: intuição e percepção. Não havia regulamento que desse conta daquela turma!
A primeira prova começou. Mônica queria resolver tudo; Obelix queria resolver tudo com força. Zero queria descobrir como não resolver nada, enquanto Cebolinha elaborava um plano infalível e Cascão só queria saber se haveria água envolvida. Salsicha queria fugir, Scooby queria fugir atrás dele e Magali queria comer.
Enquanto Fred queria ganhar, Wilma tentava impedir que ele fizesse alguma bobagem. Pedrita queria brincar, Bambam queria usar o porrete, Barney tentava acompanhar Fred e Betty tentava acompanhar todos. No meio daquela confusão, o Sargento Tainha gritava:
— ORDEM!
Foi quando Samantha mexeu o nariz e Jeannie piscou. As duas se olharam. Alguma coisa estava prestes a acontecer. E aconteceu!
Todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Mônica discutia com Cebolinha, que acusava Cascão, enquanto ele garantia que não tinha nada a ver com aquilo. Fred queria saber quem estava trapaceando; Barney tentava acalmá-lo, Wilma tentava acalmar Barney e Betty tentava acalmar Wilma.
Salsicha procurava uma saída, Scooby procurava Salsicha, Magali procurava comida e Obelix procurava quem estivesse mexendo com Mônica. O Sargento Tainha, por sua vez, gritava cada vez mais alto.
Foi então que percebi: aquela gincana não era sobre ganhar. Era sobre ritmos, porque cada um tinha o seu.
Mônica tinha o ritmo da coragem; Obelix, o da força e da lealdade. Salsicha e Scooby, o do medo que não impede a caminhada. Magali, o prazer de viver. Zero, a pausa; Cebolinha, a estratégia; Cascão, a invenção de caminhos alternativos.
Os Flintstones representavam o ritmo da família: aquela mistura de amor, confusão, negociação e alguma coisa que ninguém consegue explicar.
E o Sargento Tainha? Bem, ele tinha o ritmo da ordem. Só ainda não tinha descoberto que gente não funciona no ritmo de comando.
A essa altura, Jeannie já não precisava nem piscar, e Samantha também não precisava mexer o nariz. Nós três já sabíamos o resultado: não havia vencedor, porque aquela competição tinha outra finalidade.
Olhei para aquela turma e reconheci, em cada personagem, um pedacinho da menina que um dia os encontrou nas páginas das histórias em quadrinhos e diante da televisão. Alguns ficaram, outros foram embora. Alguns cresceram comigo; outros permaneceram exatamente como eram. Mas todos, de alguma maneira, continuavam morando em algum lugar da minha memória.
Foi então que entendi o que estava acontecendo. No fim, descobri que não havia campeonato nenhum. Era só a minha infância fazendo uma visita para saber como é que eu estava.
E eu respondi:
— Estou muito bem, obrigada!


