Festival realizado de 3 a 12 de outubro reuniu escritores, artistas, estudantes e público em diferentes espaços da cidade; com trajetória ininterrupta, evento é reconhecido como o mais longevo do país dedicado à poesia e prepara mudanças para as próximas edições, além de levar sua programação a Salvador pela primeira vez
Quatro décadas de versos, encontros, experimentação artística e ocupação dos espaços públicos. Montes Claros encerrou, no dia 12 de outubro, a 40ª edição do Festival de Arte Contemporânea Psiu Poético, uma iniciativa que transformou a cidade em ponto de encontro da literatura brasileira e consolidou sua trajetória como o festival de poesia mais longevo do país. Realizado de 3 a 12 de outubro, o evento reuniu escritores, poetas, artistas plásticos, estudantes e admiradores da literatura em uma programação que ultrapassou os limites dos espaços culturais tradicionais e levou a palavra poética a parques, escolas, bibliotecas e galerias.
Mais do que celebrar uma data histórica, a edição comemorativa reafirmou a capacidade da poesia de atravessar gerações, aproximar diferentes públicos e estabelecer diálogos entre a literatura e outras linguagens artísticas. Ao longo de dez dias, o festival promoveu declamações, exposições, lançamentos de livros, palestras, performances e atividades de formação, envolvendo participantes de Montes Claros, de outras cidades do Norte de Minas e de diferentes estados brasileiros.
Idealizado pelo poeta e agente cultural Aroldo Pereira, o Psiu Poético é criado e mantido pelo grupo de literatura e teatro Transa Poética. Sua permanência ao longo de 40 anos representa a continuidade de um projeto cultural que aposta na liberdade de criação, na circulação da palavra e na valorização de autores consagrados e de novas vozes da literatura.
“O Psiu Poético celebra a vitalidade da poesia e o poder da linguagem de despertar o ser humano por meio dos textos”, afirma Aroldo Pereira, ao destacar o sentido da iniciativa que ajudou a construir uma identidade cultural para o festival e a ampliar sua presença no cenário literário brasileiro.
Quatro décadas de encontros com grandes nomes da literatura
Ao longo de sua trajetória, o Psiu Poético recebeu importantes representantes da literatura brasileira, entre eles Thiago de Mello (1926–2022), Waly Salomão (1943–2003), Gilberto Mendonça Teles (1931–2024), Luiz Turiba (1950–2026), Jorge Mautner e Adélia Prado.
A presença desses nomes em diferentes edições contribuiu para ampliar a circulação de ideias, aproximar escritores de públicos diversos e fortalecer a relação de Montes Claros com a produção literária nacional. Ao mesmo tempo, o festival abriu espaço para artistas de diferentes gerações e procedências, mantendo a proposta de fazer da poesia uma manifestação acessível e presente na vida cotidiana.
A longevidade do evento também está relacionada à sua capacidade de dialogar com diferentes linguagens. A poesia aparece não apenas nos livros e nas declamações, mas também nas artes plásticas, nas performances, no cinema e nas atividades realizadas em espaços públicos. Essa diversidade amplia as possibilidades de participação e permite que pessoas com diferentes experiências culturais encontrem formas próprias de aproximação com a literatura.
Na edição dos 40 anos, essa proposta se manifestou em uma programação distribuída por diferentes pontos da cidade, com atividades que combinaram reflexão, produção artística, formação de leitores e celebração da palavra.
Galeria e biblioteca se transformam em espaços de poesia
A Galeria Godofredo Guedes recebeu trabalhos que aproximaram poesia e artes plásticas, permitindo ao público experimentar a relação entre palavra, imagem e expressão visual. A iniciativa reforçou uma característica do Psiu Poético: a compreensão da literatura como parte de um universo artístico mais amplo, capaz de dialogar com diferentes formas de criação.
Já a Biblioteca Municipal Doutor Antônio Teixeira de Carvalho foi palco de uma homenagem que reuniu 40 poetas, em referência às quatro décadas de existência do festival. A atividade valorizou a diversidade de vozes que compõem a produção poética e destacou a importância das bibliotecas como espaços de preservação, circulação e descoberta da literatura.
A programação também incluiu palestras sobre obras cobradas nos vestibulares da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A iniciativa aproximou o festival dos estudantes que se preparam para os processos seletivos e ofereceu oportunidades de aprofundamento na leitura e na interpretação de obras literárias.
Outro destaque foi o projeto Cine Poesia, que incorporou a linguagem audiovisual às atividades, além de lançamentos de livros e performances que ampliaram as possibilidades de interação entre artistas e público.
A combinação entre formação e experimentação artística demonstra como o festival procura ocupar diferentes espaços da vida cultural. Ao reunir atividades de reflexão, criação e contato direto com os autores, o evento fortalece a circulação da produção literária e contribui para aproximar novos leitores da poesia.
Norte de Minas marca presença na programação
A 40ª edição também contou com a participação de artistas de diferentes municípios do Norte de Minas, entre eles Januária, Janaúba, Coração de Jesus, Bocaiúva e Pirapora. A presença desses representantes reforçou a dimensão regional do festival e evidenciou a diversidade da produção cultural que emerge do território norte-mineiro.
Além dos participantes da região, o evento recebeu representantes do Paraná, de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia. Essa circulação de artistas e escritores amplia o intercâmbio entre diferentes experiências literárias e coloca Montes Claros em contato com produções culturais de outras partes do país.
A participação de autores de diferentes localidades também contribui para dar visibilidade à produção regional, criando oportunidades para que escritores apresentem seus trabalhos, estabeleçam parcerias e dialoguem com públicos que nem sempre têm acesso a eventos literários dessa dimensão.
Em uma região marcada por uma identidade cultural própria, pela tradição oral e pela força das narrativas do sertão, a presença de um festival dedicado à poesia representa uma oportunidade de valorizar tanto a produção contemporânea quanto as diferentes formas de expressão que integram a cultura norte-mineira.
Seis artistas foram homenageados na edição comemorativa
A programação dos 40 anos prestou homenagem a seis nomes da poesia e da produção cultural brasileira, reconhecendo trajetórias vinculadas a diferentes cidades e experiências artísticas.
Os homenageados desta edição foram:
– Maria Cida Neri, de Montes Claros;
– Dario Teixeira Cotrim, de Montes Claros;
– Jorge Ventura, do Rio de Janeiro;
– Tatiana Cobbett, do Rio de Janeiro;
– Deomídio Macedo, de Salvador;
– Rodrigo Leste, de Belo Horizonte.
A escolha dos homenageados reforça a proposta de reconhecer artistas de Montes Claros e de outras regiões do país, valorizando a diversidade da produção poética e a contribuição de diferentes autores para a cultura brasileira.
A homenagem a seis poetas por edição deverá continuar nas próximas realizações do festival, segundo a organização. A proposta é preservar esse reconhecimento como parte da identidade do Psiu Poético, mantendo a abertura para nomes locais e de outras partes do Brasil.
Poesia ocupa parques e aproxima crianças da literatura
A programação também ultrapassou os espaços fechados e chegou aos parques Sagarana e Milton Prates. Os locais receberam apresentações artísticas, declamações, lançamentos de livros e intervenções que aproximaram a poesia das pessoas em ambientes de convivência e lazer.
No dia 12 de outubro, quando foi celebrado o Dia das Crianças, o Parque Municipal Milton Prates recebeu atividades com participação de crianças, grupos de dança e artistas. A programação incluiu o lançamento de quatro livros infantis, ampliando o contato do público mais jovem com a literatura e estimulando a descoberta de histórias e personagens por meio dos livros.
A presença da poesia nos parques reforça a proposta de ocupar a cidade com manifestações artísticas e levar a literatura para além dos ambientes tradicionalmente associados à leitura. Em vez de restringir o contato com os poemas às páginas dos livros, as atividades criaram oportunidades para que a palavra circulasse em espaços abertos, acompanhada de música, dança, performances e encontros entre artistas e comunidade.
A participação das crianças também destaca a importância de iniciativas que incentivam o contato com a literatura desde os primeiros anos de vida. O acesso a livros, apresentações e experiências artísticas pode contribuir para despertar a curiosidade, estimular a imaginação e ampliar as possibilidades de expressão.
Escolas mobilizaram estudantes em homenagem aos poetas
O envolvimento das instituições de ensino foi outro componente importante da edição comemorativa. Segundo Aroldo Pereira, algumas escolas mobilizaram cerca de 300 alunos em atividades de valorização da poesia e da literatura.
A participação estudantil aproxima o festival do cotidiano escolar e cria oportunidades para que os estudantes conheçam diferentes autores, experimentem a leitura de poemas e reconheçam a literatura como uma forma de expressão que dialoga com suas próprias experiências.
A mobilização também amplia o alcance do evento, permitindo que a celebração dos 40 anos ultrapasse os espaços de programação e chegue às salas de aula, envolvendo professores, estudantes e comunidades escolares.
A edição comemorativa contou com o apoio da Prefeitura de Montes Claros, por meio das secretarias municipais de Cultura e Turismo e de Ambiente, Bem-Estar Animal e Sustentabilidade. Os organizadores agradeceram à administração municipal pelo apoio à realização do festival.
Próximas edições poderão ter programação mais curta
Depois de quatro décadas de atividades ininterruptas, o Psiu Poético inicia uma nova etapa de reflexão sobre seu formato. A partir da próxima edição, os organizadores Renilson Durães, Mirna Mendes e os demais integrantes do grupo Transa Poética pretendem reavaliar a estrutura do evento, incluindo a possibilidade de reduzir o número de dias da programação.
A mudança ainda está no campo das possibilidades e faz parte das discussões sobre a continuidade do festival. A intenção é avaliar o formato sem abandonar características consideradas fundamentais para sua identidade, entre elas a valorização da poesia, a diversidade de linguagens e o reconhecimento de artistas.
A manutenção da homenagem a seis poetas por edição está entre os compromissos anunciados pela organização. Para ampliar a participação da comunidade nesse processo, o festival abriu espaço para que o público sugira nomes para as próximas homenagens.
As sugestões podem ser encaminhadas pelo e-mail psio-poetico@gmail.com, diretamente no Centro Cultural ou na Biblioteca Municipal. Também serão aceitas cartas com indicações de artistas que, na avaliação dos participantes, mereçam reconhecimento nas próximas edições.
A iniciativa mantém o diálogo com o público e permite que a escolha dos homenageados receba contribuições de pessoas que acompanham a trajetória do festival e conhecem a produção literária local e nacional.
Psiu Poético chega a Salvador pela primeira vez
A celebração dos 40 anos também marca a ampliação da circulação do festival pelo país. Depois de realizar atividades em cidades como Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o Psiu Poético levará sua programação a Salvador pela primeira vez, a partir de sexta-feira (16 de outubro).
A iniciativa foi articulada a convite de representantes da classe cultural da capital baiana e representa mais um passo na expansão das atividades para além de Montes Claros.
A circulação por outras cidades cria oportunidades para apresentar o trabalho desenvolvido pelo grupo Transa Poética, estabelecer novos contatos e aproximar artistas de diferentes regiões. Ao mesmo tempo, amplia a visibilidade da produção cultural norte-mineira e da experiência acumulada pelo festival ao longo de quatro décadas.
A chegada a Salvador acontece poucos dias depois do encerramento da edição comemorativa em Montes Claros, prolongando as celebrações e reforçando o caráter itinerante das ações vinculadas ao projeto.
Quarenta anos de poesia e continuidade
A trajetória do Psiu Poético demonstra a permanência de uma iniciativa cultural que atravessou diferentes gerações e manteve a poesia no centro de sua proposta. Ao longo dos anos, o festival reuniu escritores reconhecidos, artistas emergentes, estudantes e pessoas interessadas em experimentar a literatura de diferentes maneiras.
Na edição de 2026, as atividades distribuídas por galerias, bibliotecas, parques e escolas reafirmaram essa vocação de aproximar a arte da comunidade. A participação de representantes do Norte de Minas e de outros estados ampliou o intercâmbio cultural, enquanto as homenagens e os lançamentos de livros destacaram a diversidade da produção poética.
Ao completar 40 anos, o festival não apenas revisita sua história, mas também discute os caminhos para continuar existindo. A avaliação do formato, a manutenção das homenagens e a circulação por outras cidades fazem parte desse movimento de renovação.
Em Montes Claros, onde a poesia encontrou espaço para permanecer por quatro décadas, o Psiu Poético segue como uma referência nacional de continuidade cultural e de valorização da palavra. Sua história é construída a cada edição, nos livros lançados, nos poemas declamados, nas escolas mobilizadas e nos encontros que mantêm viva a relação entre literatura, cidade e comunidade.


