Festival iniciado em 1987 reúne poesia, música, cinema, dança, teatro e performances em diferentes pontos da cidade e segue até 12 de outubro
Quarenta anos depois de nascer em Montes Claros, o Psiu Poético continua fazendo aquilo que talvez explique melhor sua própria existência: tirar a poesia do lugar onde normalmente se espera encontrá-la e colocá-la para circular pela cidade. Desde o dia 3 de outubro, a edição comemorativa do festival ocupa diferentes espaços do município com uma programação que reúne poesia, música, cinema, dança, teatro, saraus, performances e outras manifestações artísticas.
Ao longo de quatro décadas, o Psiu se tornou uma das principais referências culturais de Montes Claros e um espaço aberto para diferentes formas de expressão. Em vez de limitar a poesia às páginas de um livro ou aos espaços tradicionais de apresentação, o festival aposta justamente na mistura de linguagens e na ocupação dos lugares da cidade.
Nesta edição de aniversário, esse conceito aparece também na ambientação do Centro Cultural Hermes de Paula, que funciona como um dos principais pontos de encontro da programação.
Poesia que sai do papel
No Centro Cultural, a exposição em cartaz na Galeria Godofredo Guedes ganhou uma intervenção visual pensada para representar o próprio espírito do Psiu Poético: a poesia que começa em uma folha de papel, mas não permanece nela.
Folhas espalhadas pelo teto, paredes e diferentes pontos do espaço criam a sensação de que os versos estão escapando das páginas e tomando conta do ambiente.
A gestora do Centro Cultural e curadora da exposição, Luana Z., explica que a instalação foi criada justamente para representar esse movimento.
“A ideia é mostrar as folhas saindo da máquina de escrever. Então cada ideia que é digitada aqui, ela se transforma e vai ocupando espaços, vai voando, vai se espalhando pela cidade, pelas paredes, pelo teto, pela galeria, pelas praças e continua se espalhando pela cidade”, destacou.
A imagem traduz uma característica que acompanha o festival desde sua origem. O Psiu Poético não se limita a apresentar poesia: ele cria situações para que a literatura encontre outras artes, outros públicos e outros lugares.
Uma máquina de escrever no meio da exposição
Em meio à instalação, uma máquina de datilografia também chama a atenção dos visitantes. O equipamento não está ali apenas como peça decorativa. A proposta é permitir que o público experimente escrever como se fazia antes da popularização dos computadores e celulares.
Para os mais jovens, a máquina pode parecer quase uma peça de outro tempo. Para quem viveu as décadas de 1980 e 1990, porém, ela carrega uma memória afetiva.
Luana conta que quis recuperar essa experiência justamente por sua ligação com o período em que o Psiu Poético nasceu.
“A primeira edição do Psiu Poético aconteceu em 1987, eu nasci em 1987. Então eu quis trazer um pouco do que tinha na década de 80, naquele ano, como as poesias eram escritas. Eu tenho uma lembrança muito gostosa de datilografar, morando no interior de Minas Gerais, passei por essa experiência”, relatou.
A máquina fica disponível para que os visitantes também deixem suas próprias contribuições. Dessa forma, a instalação não apenas conta uma história: ela permite que novas histórias sejam escritas durante o próprio festival.
Quatro décadas de poesia
Nascido em Montes Claros e gestado por integrantes do grupo teatral Transa Poética, o Psiu Poético começou sua trajetória em 1987. Desde então, foi construindo uma identidade própria dentro da cena cultural brasileira, especialmente pela liberdade de reunir diferentes linguagens e artistas.
O festival também rompe com a lógica tradicional dos eventos competitivos. O Psiu não funciona como concurso e não exige que seus participantes tenham carreira consolidada ou sejam profissionais reconhecidos.
Essa característica ajuda a explicar a diversidade de vozes que passam pelo evento. Artistas de diferentes gerações, experiências e trajetórias encontram espaço para apresentar seus trabalhos e dividir a programação.
É justamente nessa abertura que a poesia ganha diferentes sotaques, formatos e maneiras de existir.
Em quatro décadas, o festival acompanhou mudanças na forma de produzir e consumir cultura, atravessou gerações e manteve a proposta de aproximar a produção artística do público.
Memória que vira filme
A história do Psiu Poético também está sendo transformada em registro audiovisual. A edição comemorativa de 40 anos será documentada em um filme de longa-metragem, reunindo parte da trajetória do festival e das manifestações artísticas que fizeram parte de sua história.
O registro busca preservar não apenas os grandes momentos do evento, mas também a memória de pessoas, artistas, apresentações e experiências que ajudaram a construir essa trajetória.
Em um festival que já atravessou quatro décadas, preservar a memória significa também garantir que novas gerações possam conhecer as histórias que vieram antes delas.
A poesia continua pelas ruas
A programação dos 40 anos segue até 12 de outubro, com atividades gratuitas em diferentes pontos de Montes Claros.
A escolha por ocupar espaços diversos mantém uma das características mais marcantes do Psiu: levar a arte para perto das pessoas e fazer com que a cidade também participe da experiência.
Durante os dias do festival, poesia pode aparecer em uma praça, em uma apresentação musical, em uma performance, em uma sessão de cinema, em um espetáculo teatral ou simplesmente em uma folha que alguém decidiu escrever e deixar pelo caminho.
Quarenta anos depois de sua primeira edição, o Psiu Poético continua sendo uma espécie de convite para olhar a cidade com outros olhos. E talvez seja esse o seu maior legado: mostrar que poesia não precisa ficar parada no papel.
Ela pode sair da máquina de escrever, atravessar as paredes, ocupar as praças, encontrar outras artes e continuar andando pela cidade.
A programação completa do festival está disponível no perfil oficial do Psiu Poético, @psiupoetico.


