Por que faço o que faço — e COMO faço? - Rede Gazeta de Comunicação

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Por que faço o que faço — e COMO faço?

Adelaide Valle Pires

Psicóloga por formação, arqueóloga de coração

Dizem que a vida é aquilo que acontece enquanto a gente está ocupado fazendo planos.

Eu, confesso, acho que a vida é aquilo que a gente vê enquanto tudo acontece.

Outro dia, preparando uma palestra, cujo tema é a pergunta   POR QUE FAÇO O QUE FAÇO?  puxei de dentro da minha gaveta simbólica três companheiros de estrada:

a lente, o foco e o sentido.

E, como boa psicóloga por formação e arqueóloga de coração, lá fui eu escavar.

Dialogando comigo mesma, descobri que a lente é teimosa.

Ela puxa lembranças, desmonta certezas, inventa cores.

Ela insiste em lembrar que a vida não mostra o que ela é —

mostra o que eu estou pronta para ver.

Divertindo a minha alma, percebi que foco é uma coisa meio ciumenta.

Se dou atenção demais ao passado, ele reclama.

Se sonho exageradamente com o futuro, ele cruza os braços.

Foco gosta é do agora — desse presente que sempre chega sem embrulho, mas com significado.

E o desenvolvimento veio quando sentei ao lado do sentido.

Ele não falou muito, não.

Sentidos profundos não fazem discursos.

Eles cochicham.

E foi num desses cochichos que ele me soprou:

“Você faz o que faz porque, quando faz, fica inteira.”

Não perfeita, não infalível — apenas inteira.

Como o Pequi que me acompanha: casca, polpa e castanha.

Três camadas de uma mesma verdade.

Então entendi:

Propósito não é uma resposta pronta —

é uma respiração.

Respira quando a lente clareia.

Respira quando o foco ilumina.

Respira quando o sentido aparece

no meio de um gesto simples, numa fala sincera, num encontro verdadeiro.

E por isso, se alguém me pergunta hoje

“Por que você faz o que faz?”

eu sorrio e respondo:

Porque, quando eu faço, é como se a minha alma dissesse: agora sim