Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Por que você se senta lá no fundo?
A pergunta do professor, na série O Último da Fila, parecia carregar uma resposta pronta. Afinal, existe uma imagem bastante conhecida da turma do fundão: alunos desinteressados, bagunceiros, pouco dispostos a aprender.
Mas a resposta daquele rapaz mudou o lugar de onde eu estava olhando.
— Porque lá do fundo eu vejo tudo e não sou visto.
Que sacada! O lugar que parecia revelar desinteresse podia ser, para ele, justamente o melhor ponto de observação. O que o professor enxergava como distanciamento, o aluno percebia como uma oportunidade de observar sem ser observado.
Quantas vezes julgamos alguém pela posição que ocupa sem nos perguntarmos o que aquela posição significa para essa pessoa?
Lembrei-me de uma antiga gravação de treinamento em que uma profissional perguntava a um cliente onde ele costumava se sentar à mesa de reuniões. Ele não entendia a razão da pergunta. Ela, porém, sabia que a posição ocupada à mesa pode dizer muito sobre relações, escolhas e formas de participar.
Estar na cabeceira, por exemplo, costuma ser associado à liderança, à autoridade e ao poder de decisão. Há até aquela brincadeira de que quem se senta à cabeceira paga a conta! Mas será que a posição, por si só, determina o papel de alguém?
Essa questão me acompanhou em uma experiência no Trem PEP, uma viagem de aprendizagem que organizei. Coloquei os copos no centro da mesa, cada um identificado por marcadores coloridos. O meu tinha dois, pois representava duas presenças: a minha e a de um convidado especial que não pôde participar da viagem.
Alguém pegou aquele copo, e precisei explicar que ele tinha duas representatividades. Enquanto isso, a cabeceira da mesa permanecia vazia, reservada para mim. A situação rendeu uma conversa sobre lugares, costumes e os significados que atribuímos a eles.
O copo estava no centro, disponível ao olhar de todos, mas isso não significava que não tivesse dono. A cabeceira estava vazia, mas isso não significava que estivesse disponível.
Na vida, nem sempre o que está visível é o que está compreendido. Às vezes, enxergamos o objeto, mas não percebemos seu significado. Vemos o lugar, mas desconhecemos o que ele representa.
Mais recentemente, em uma viagem de avião, vivi outra experiência que ampliou essa reflexão.
Uma mudança de poltrona me colocou em uma fileira mais à frente, na região de transição entre a primeira classe e os demais passageiros. Sentada no corredor, eu tinha uma visão dos dois lados. E foi assim, de um lugar que me permitia observar o conjunto, que percebi diferenças que poderiam passar despercebidas de outra posição.
O lanche servido aos passageiros da fileira anterior era bem diferente daquele oferecido dali para trás.
Não precisei de explicações. Bastou observar.
A mudança de lugar me permitiu enxergar não apenas o que estava ao meu redor, mas também as diferenças de tratamento que conviviam dentro do mesmo avião. Todos estavam no mesmo voo, seguindo para o mesmo destino, mas não recebiam exatamente as mesmas coisas.
Foi uma espécie de aula prática sobre privilégios. Afinal, ocupar uma posição diferenciada pode proporcionar vantagens que nem sempre são percebidas por quem as recebe. Para identificá-las, é preciso olhar além do próprio assento.
Fiquei pensando em quantas situações da vida acontecem assim. Às vezes, não percebemos determinadas diferenças porque estamos acostumados ao nosso próprio lugar. Outras vezes, só conseguimos compreendê-las quando mudamos de posição e ampliamos nosso campo de visão.
A posição que ocupamos interfere naquilo que vemos, nas informações a que temos acesso e nas escolhas que fazemos. Pode influenciar nossa conduta, nossas relações e até a maneira como interpretamos o comportamento dos outros.
Mas existe uma diferença entre ocupar um lugar e compreender o que ele nos permite enxergar.
O último da fila pode ter uma visão privilegiada do conjunto. Quem está à frente pode ter acesso a benefícios que os demais não recebem. E quem está no meio pode perceber diferenças que os extremos não conseguem ver.
Nenhuma dessas posições, isoladamente, garante uma compreensão completa da realidade.
O exercício mais importante pode ser aprender a mudar de perspectiva. Sair, por alguns instantes, do lugar que conhecemos tão bem e experimentar o olhar de quem está em outra posição. Não para abandonar nosso lugar, mas para compreender melhor o que acontece ao redor.
Na sala de aula, na mesa de reunião, no trem, no avião ou na vida, nossa posição pode ser muito mais do que um lugar físico. Pode ser o ponto de partida de uma interpretação, o limite de uma percepção ou a oportunidade de uma descoberta.
E se, antes de julgar alguém pelo lugar que ocupa, a gente experimentasse olhar o mundo do lugar de onde essa pessoa está olhando?


