O Saber Ler que desperta a nova mulher” - Rede Gazeta de Comunicação

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O Saber Ler que desperta a nova mulher”

Adelaide Valle Pires

Psicologa por formação , arqueologa de coração

— Adelaide, deixa eu te perguntar uma coisa… você sabe o que é apreciar? — disse o Sr. M. com aquele ar tranqüilo de quem tem metade da minha idade, mas nasceu antes no ofício da escrita.

— Uai, M… apreciar? Deve ser gostar, admirar… — respondi rindo.

Ele levantou a sobrancelha, com ar professoral:

— O dicionário diz que apreciar é entender e aproveitar uma obra de arte.

E, depois de um silêncio que parecia teste oral, ele perguntou:

— E você… aproveita?

Me deixou de boca aberta.

— Às vezes a gente não aproveita porque… — ele disse devagar — não sabe ler ainda.

Porque ele continuou:

— Saber ler não é passar por cima das palavras. É deixar que o texto mexa no seu pensamento. Quando você pensa enquanto lê, fica curiosa. E a curiosidade… é ela que te impulsiona. É o combustível do seu próprio aprendizado.

Eu fiquei tão quieta que podia ouvir meus neurônios fazendo café.

E foi nessa hora que vibrou o celular.

Mensagem no grupo do Quarteto Santo Agostinho.

Uma delas escreveu:

“Amiga, estou adorando essa nova mulher que você está se tornando.”

A outra completou:

“Você virou fonte de inspiração pra gente.”

E eu parei.

Porque aquilo era exatamente o que o Sr.  M.  estava dizendo — só que em versão abraço, risada e adolescência. Bem no nosso estilo quarteto .

Foi aí que me lembrei da  minha amiga  sra. A,  como se ela tivesse encostado na porta da conversa, dizendo:

—isso é o  efeito dominó.

O primeiro cai dentro de você… depois toca suas amigas… depois toca quem lê…

e de repente vira corrente do bem.

É progressão geométrica do pensar.

E eu entendi tudo.

Apreciar não é só entender.

É aproveitar.

E aproveitar é pensar.

E pensar é ficar curiosa.

E a curiosidade acende essa chama da nova mulher que sempre esteve ali — só esperando você se ler.

No fim das contas, é isso que eu faço e que convido os outros a fazerem:

saber ler a vida como quem abre portas.

Uma cai.

Depois outra.

Depois outra.

E quando você percebe…

virou obra de arte o simples ato de pensar.