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O menu da conversa - Rede Gazeta de Comunicação

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O menu da conversa

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Uma provocação tem dessas coisas: cutuca um pensamento, desarruma algumas certezas e, quando a gente percebe, está de volta às anotações da faculdade, procurando argumentos para entender o que acabou de acontecer.

Mas vamos por partes.

As pessoas querem ter razões para pensar e fazer o que pensam e fazem. O problema é que nem sempre as razões apresentadas são boas razões. E, para complicar, ter uma razão não significa, necessariamente, ter razão.

Lembrei de uma cena de série. Uma moça ficou preocupada com o sumiço de um rapaz. Ao saber de um acidente, foi de táxi ao hospital, imaginando que ele pudesse ser a vítima. Não era. Ao descobrir que ele havia saído para ajudar no socorro, ficou furiosa por ele não ter avisado.

O rapaz mostrou a ela um print da mensagem que havia enviado enquanto estava na ambulância, acompanhando a vítima. A mensagem não chegara até ela. Uma informação que faltava mudou a perspectiva do conflito.

Na vida, nem sempre existe um print capaz de resolver o mal-entendido. Muitas vezes, discutimos por uma informação que não chegou, uma frase mal interpretada ou uma conclusão apressada.

Em cursos feitos há décadas, estudei argumentos e linguagem. Argumentar não é apenas afirmar o que pensamos, mas apresentar razões que sustentem nossas ideias. Podemos argumentar para explicar, justificar ou persuadir. Isso não significa que precisamos convencer o outro a qualquer custo.

Nesse passeio pelas ideias, encontrei também uma história atribuída a Lincoln, advogado antes de se tornar presidente dos Estados Unidos.

Perguntaram a uma testemunha quantas pernas tinha um cavalo. Ela respondeu que quatro. Lincoln então provocou: se chamássemos o rabo de perna, quantas pernas o cavalo teria? Cinco, respondeu a testemunha.

A resposta veio afiada: chamar o rabo de perna não faz dele uma perna.

A história é conhecida em diferentes versões, mas a lição continua de pé — com as quatro patas do cavalo no lugar.

As palavras podem mudar a maneira como apresentamos os fatos, mas não mudam os fatos por decreto.

E as palavras, ah, as palavras! Foi por causa delas que me lembrei de um trabalho da faculdade sobre o livro Como compreender Lacan. Antes de escrevê-lo, levei o tema para uma roda de conversa em família, num debate entre Lacan e Saussure sobre linguagem representacional, significante e significado.

Pense numa mesa: o significante é a palavra mesa; o significado é o conceito que ela representa. A palavra não é o objeto. E mudar o nome das coisas não muda a realidade.

Anos depois, minhas anotações continuam me lembrando de que conversar exige mais do que conhecer palavras. Exige saber usá-las, compreender o contexto, reconhecer o que é relevante e respeitar os limites entre o que sabemos, o que pensamos e o que supomos.

Foi então que voltei os olhos para o meu menu da conversa, afixado na geladeira.

Ele tem cinco combinados:

1.         Diga o que você pensa.

2.         Explique por que pensa assim.

3.         Escute o outro até o fim.

4.         Compreenda antes de responder.

5.         Discorde da ideia, não da pessoa.

Simples? Na geladeira, sim. Na hora do aperto, nem tanto!

Porque é justamente quando nos sentimos contrariados que temos mais vontade de interromper, rebater e provar que estamos certos. A língua acelera, os ouvidos entram de férias e a conversa vira uma competição de argumentos.

Minhas anotações ainda guardam três cuidados preciosos para quem conversa: dizer o necessário, não apresentar como verdade aquilo em que não acredita e procurar manter a relevância do que diz. Ser claro, breve e ordenado também ajuda. E muito!

No fundo, é uma questão de escolha. Podemos usar a linguagem para construir pontes ou para levantar muros. Podemos argumentar para esclarecer ou apenas para vencer. Podemos procurar compreender o outro ou colecionar motivos para condená-lo.

A provocação que me trouxe até aqui cumpriu seu papel. Tirou minhas ideias do lugar e me fez revisitar conhecimentos que estavam guardados. Agora, em vez de procurar uma resposta para cada provocação, prefiro começar com algumas perguntas: qual é a razão apresentada? Ela se sustenta? O que ainda preciso compreender?

E, se a conversa esquentar, dou uma olhadinha no menu da geladeira.

Afinal, entre ter razão e construir entendimento, há uma conversa inteira esperando para acontecer.