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O caminho dos resíduos e os desafios de quem transforma lixo em renda - Rede Gazeta de Comunicação

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O caminho dos resíduos e os desafios de quem transforma lixo em renda

Cidade tem programa municipal, associações de catadores e projetos comunitários, mas dados históricos revelam uma distância entre o potencial de reaproveitamento e o volume efetivamente reciclado

Uma garrafa plástica, uma caixa de papelão ou uma lata de alumínio separadas do lixo comum podem ganhar uma nova vida. Em Montes Claros, esses materiais alimentam uma cadeia que envolve Prefeitura, associações de catadores, empresas, condomínios, instituições de ensino e moradores. Mas, afinal, para onde vão os resíduos depois que são recolhidos?

O caminho passa pela coleta, transporte, triagem, prensagem, armazenamento e comercialização. É nesse processo que o material descartado pode voltar à indústria como matéria-prima e gerar renda para trabalhadores que desempenham uma função essencial para o meio ambiente, mas nem sempre recebem o devido reconhecimento.

O principal instrumento municipal é o programa Recicla aos Montes, coordenado pela Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SSU), com participação da Secretaria Municipal de Ambiente, Bem-Estar Animal e Sustentabilidade (SABEAS) e de organizações de catadores. A proposta é reduzir o volume de resíduos encaminhados ao aterro sanitário, ampliar a coleta seletiva e fortalecer o trabalho das associações.

O tamanho do desafio em números

Dados divulgados pela Prefeitura em 2024, com base na coleta de 2022, apontavam que Montes Claros recolhia, em média, 6.768 toneladas de resíduos domiciliares por mês. Desse total, aproximadamente 35%, ou 2.368 toneladas mensais, teriam potencial de reciclagem.

Entretanto, as associações credenciadas haviam comercializado cerca de 606 toneladas durante todo o ano considerado. Aproximadamente 400 toneladas eram de vidro; o restante correspondia a papel, plástico e metal.

Em julho de 2026, a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), ao anunciar parceria com o programa, divulgou uma estimativa de cerca de 250 toneladas de resíduos domiciliares por dia, aproximadamente sete mil toneladas mensais. Desse volume, cerca de um terço, ou 2,4 mil toneladas, poderia ser reciclável.

Os números são estimativas de períodos diferentes e não representam o volume atualmente recolhido. Ainda assim, evidenciam a distância entre o potencial de reaproveitamento e os resultados registrados. Para avaliar a evolução da política pública, é fundamental que o município divulgue dados atualizados sobre coleta, triagem, rejeitos e comercialização.

Quem recebe os materiais?

A página oficial do Recicla aos Montes apresenta cinco organizações parceiras, distribuídas por regiões:

Associação Comunitária de Tabuas: Região 7, incluindo a comunidade rural de Tabuas;

MONTESUL: Região 2;

3 R’s Soluções Sustentáveis: Região 3;

EcoGalpão: Região 4;

Associação de Catadores da Região do Grande Village: Região 5.

A divisão demonstra que a destinação dos recicláveis depende da região e da logística organizada pelo programa. A MONTESUL, por exemplo, possui proposta de atuação na Região 2, na área sul da cidade, com previsão de coleta, triagem, comercialização, capacitação e educação ambiental. O documento relaciona bairros como Major Prates, Ibituruna, Maracanã, Alterosa, Cidade Nova, Morada do Sol e Augusta Mota. A lista, porém, representa a área planejada pela entidade, não uma confirmação de coleta regular em todos esses bairros.

Onde a coleta acontece?

Um dos pontos que merece atenção é a diferença entre a abrangência planejada e o serviço porta a porta efetivamente divulgado pela Prefeitura. Na orientação disponível no portal municipal, a coleta domiciliar de recicláveis é informada em dois bairros:

Jardim Palmeiras: segundas-feiras, a partir das 7h30;

Todos os Santos: terças-feiras, a partir das 7h30.

Para os demais bairros, a orientação é encaminhar os materiais à associação de catadores mais próxima, conforme a região atendida. A Secretaria informa que a ampliação da coleta está em planejamento.

Projetos comunitários e participação da Unimontes

Além do programa municipal, Montes Claros possui experiências comunitárias. O projeto Guarujá Ambiental, formalizado em 2018, previa coleta seletiva porta a porta, educação ambiental, capacitação de catadores e estruturação de um ponto de apoio na sede da associação de moradores. Os registros consultados, entretanto, não permitem confirmar a continuidade atual do serviço nem o volume recolhido.

Em julho de 2026, a Unimontes anunciou a instalação de uma base permanente de recebimento de recicláveis no campus-sede, com estruturas para armazenamento dos materiais. A proposta prevê que os resíduos sejam recolhidos e encaminhados a uma das associações cadastradas para triagem e comercialização. A iniciativa conta com apoio de Alpargatas, Café 3 Corações e grupo Coteminas.

Na ocasião, a universidade informou que aproximadamente 120 catadores estavam ativos nas associações e que cerca de 850 pessoas estavam cadastradas para possível incorporação gradual ao projeto. São dados daquele período e precisam de atualização.

O trabalho que começa depois da coleta

A reciclagem não termina quando o material chega ao galpão. Os catadores precisam separar os resíduos por tipo, retirar rejeitos, preparar os lotes e armazenar os produtos até que possam ser comercializados. Papelão, plástico, vidro e metal seguem cadeias diferentes, com preços que variam conforme qualidade, quantidade e mercado.

Uma reportagem publicada pela Arquidiocese de Montes Claros em 2025 sobre a MONTESUL registrou dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores, como estrutura inadequada, equipamentos insuficientes, problemas de higiene e necessidade de melhores condições para alimentação e uso de equipamentos de proteção individual.

Esses relatos mostram que a coleta seletiva também é uma questão de trabalho, infraestrutura e remuneração. Não basta incentivar o morador a separar o lixo: é preciso garantir condições adequadas para quem recebe, classifica e comercializa os materiais.

O que ainda precisa ser esclarecido

Apesar dos projetos e das organizações identificadas, os dados públicos consultados não permitem fechar um balanço atualizado de 2026. Faltam informações consolidadas sobre toneladas recolhidas e comercializadas, rejeitos descartados, valores repassados às associações, renda dos catadores e empresas que compram os materiais.

Também não foram encontrados registros públicos suficientemente detalhados e atualizados para confirmar a situação, a área de atendimento e os resultados de iniciativas citadas no debate local, como o Muro Papão e o Projeto RECICLA. É importante não confundir este último com o programa municipal Recicla aos Montes sem documentação que comprove eventual relação.

A Prefeitura precisa esclarecer ainda quando a coleta porta a porta será ampliada, quais bairros serão contemplados e como estão as condições dos galpões, equipamentos e veículos utilizados pelas associações.

Reciclar é mais do que separar o lixo

Montes Claros tem uma estrutura formada por programa municipal, associações, parcerias institucionais e iniciativas comunitárias. O desafio é ampliar o alcance da coleta e tornar os resultados transparentes.

Quando o morador separa uma embalagem, o trabalho está apenas começando. Para que ela realmente volte à cadeia produtiva, são necessários coleta regular, transporte, triagem, compradores e remuneração justa para os trabalhadores.

A reciclagem representa uma oportunidade ambiental, social e econômica. Mas, para saber se a cidade está avançando, não basta contabilizar projetos anunciados. É preciso mostrar quanto foi recolhido, quanto foi vendido, quanto deixou de ir para o aterro e quanto desse trabalho se transformou em renda para os catadores.

A pergunta, portanto, vai além do destino dos resíduos: quem sustenta a cadeia da reciclagem em Montes Claros e quais condições a cidade oferece para que esse trabalho continue?