O Brasil precisa de um novo herói? - Rede Gazeta de Comunicação

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O Brasil precisa de um novo herói?

JONATAS BRAGA

 Professor, Consultor e Filósofo

Nessa semana terminei a série Senna da Netflix, a experiência foi mais do que simplesmente assistir à narrativa de um piloto lendário. Foi, acima de tudo, um reencontro com uma sensação de orfandade. Eu, que nasci em 1992 e não vi Ayrton competir, senti o peso de uma ausência que não é apenas a dele, mas de algo maior. Percebi o quanto nós, brasileiros, estamos carentes de figuras que personifiquem a essência do nosso povo ou que materializem os sonhos de uma nação faminta por referências. Ayrton Senna não foi apenas um piloto de Fórmula 1; ele foi o herói que, por um tempo, deu forma aos nossos anseios mais profundos.

Para entender por que Senna se tornou um herói nacional, é necessário revisitar o contexto histórico do Brasil dos anos 80 e 90. O país emergia de uma ditadura militar (1964-1985) e enfrentava os desafios de uma democracia em formação. A instabilidade política e econômica, marcada pela inflação galopante e pela fragilidade das lideranças institucionais, fazia com que o brasileiro buscasse no esporte e na cultura um ponto de estabilidade simbólica. Não é coincidência que foi nessa época que o futebol e a Fórmula 1 assumiram papéis de protagonismo emocional.

Senna, nesse cenário, não era apenas um piloto. Ele era o brasileiro que vencia os melhores do mundo. A Fórmula 1, até então considerada um esporte elitista e distante da realidade popular, se popularizou de tal forma que as corridas nas manhãs de domingo se tornaram rituais nacionais. Cada ultrapassagem sua era um ato de bravura. Cada vitória, uma resposta ao sentimento de inferioridade que insistia em rondar o imaginário coletivo brasileiro.

Para entender a dimensão filosófica dessa construção, é possível recorrer à teoria de Benedict Anderson sobre as “comunidades imaginadas”. Segundo Anderson, a nação não é uma comunidade natural, mas uma construção simbólica. Elementos culturais como jornais, literatura e — no caso brasileiro — o esporte, funcionam como aglutinadores de identidade coletiva. As corridas de Senna foram mais do que competições esportivas; foram cerimônias de reafirmação nacional. Cada vitória dele era interpretada como uma vitória do Brasil inteiro. Se na política nos faltavam líderes, na Fórmula 1 tínhamos um herói.

O que faz, afinal, de Senna um herói? Há muitos fatores que se entrelaçam. Primeiro, sua personalidade obstinada. Senna era o exemplo de um perfeccionista. Sua busca pela excelência transcendia o esporte. Ele não corria apenas para vencer, mas para ser o melhor que poderia ser. Suas entrevistas revelavam um homem guiado por uma forte espiritualidade, consciente de sua responsabilidade para com o Brasil. Isso cativava um povo acostumado a ver lideranças políticas que prometiam muito, mas entregavam pouco. Ao erguer a bandeira brasileira no pódio, Senna não se limitava a um gesto simbólico; ele estava, de certa forma, reconstituindo a dignidade de uma nação inteira.

Outro elemento essencial foi o momento histórico. Na época, o Brasil vivia um contexto de crise política e econômica. As instituições estavam desacreditadas e a inflação corroía os salários. Mas, enquanto as lideranças falhavam, Senna vencia. Em um país que frequentemente se via como derrotado, seu capacete amarelo surgia como um símbolo de persistência e, sobretudo, de esperança. Seu exemplo mostrava que, mesmo diante das adversidades, era possível superar os desafios e vencer.

A aclamação de Senna também passa pela capacidade do esporte de mobilizar o imaginário coletivo. Assim como o futebol, a Fórmula 1 se tornou uma arena onde o “Brasil invisível” (aquele que sofre as desigualdades) se torna visível. Quando Senna cruzava a linha de chegada, o Brasil cruzava junto. Essa sensação de pertença fez de Senna muito mais do que um piloto; fez dele o rosto da esperança. Sua morte, em 1994, simbolizou não apenas a perda de um ídolo, mas a perda de uma referência moral para a nação.

Mas a reflexão que fica é: precisamos de heróis apenas no esporte? Se Senna nos ensinou algo, foi que o Brasil precisa de referências em todas as áreas. Precisamos de heróis na educação, na ciência, na política e na cultura. Esses heróis, ao contrário dos super-heróis da ficção, não precisam de capas, mas de ações concretas e exemplos consistentes.

E talvez não precisemos esperar por um novo Senna. Podemos construir referências todos os dias, em nossos trabalhos, nas escolas, nos projetos que abraçamos. Se, como ensina Benedict Anderson, as nações são comunidades imaginadas, podemos imaginar e forjar nossos próprios heróis. Heróis não precisam nascer em pistas de corrida; eles podem surgir nas salas de aula, nos laboratórios de pesquisa, nas ruas, etc. E, quem sabe, possamos ser esses heróis, cada um à sua maneira, ajudando a construir um Brasil que não precise mais buscar fora aquilo que já está dentro de si mesmo.