Descrição da imagem
Novembro Azul alerta para queda de espermatozoides e riscos à fertilidade masculina - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

Novembro Azul alerta para queda de espermatozoides e riscos à fertilidade masculina

Infertilidade afeta um em cada seis casais no mundo, e o fator masculino está presente em cerca de 40% dos casos; especialistas defendem investigação dos dois parceiros desde o início

O Novembro Azul, tradicionalmente associado à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de próstata, também chama a atenção para um tema que ainda recebe pouca atenção dos homens: a saúde reprodutiva. A queda na contagem de espermatozoides, os hábitos de vida prejudiciais e o adiamento de consultas médicas estão entre os fatores que preocupam especialistas e reforçam a importância do cuidado integral com a saúde masculina.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infertilidade atinge aproximadamente um em cada seis casais no mundo. O fator masculino está envolvido em cerca de 40% dos casos. O alerta ganhou força com uma revisão de estudos publicada neste ano na revista científica Antioxidants, que aponta uma redução superior a 51% na contagem de espermatozoides no mundo desde 1973, além de uma aceleração no ritmo dessa queda.

Os dados reforçam a necessidade de ampliar a abordagem do Novembro Azul para além da saúde da próstata. A fertilidade também faz parte da saúde masculina e pode ser afetada por condições clínicas, exposição a substâncias prejudiciais e comportamentos que, muitas vezes, passam despercebidos no dia a dia.

Homens vivem menos e procuram menos atendimento médico

No Brasil, a diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres evidencia outro desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida masculina em 2024 era de 73,3 anos, enquanto a feminina chegava a 79,9 anos — uma diferença de 6,6 anos.

A mortalidade também apresenta disparidades expressivas entre os sexos. Na faixa etária de 20 a 24 anos, a taxa entre os homens foi 4,1 vezes maior que entre as mulheres.

Parte desse cenário está relacionada à forma como os homens lidam com a própria saúde. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), realizada com 1.500 homens acima de 40 anos de todas as regiões do país, mostrou que 46% só procuram atendimento médico quando apresentam algum sintoma.

Metade dos entrevistados relatou sentir medo ou ansiedade ao pensar na própria saúde, mas apenas 32% disseram estar muito preocupados com o assunto. Os dados indicam a importância de estimular a prevenção e o acompanhamento médico antes do surgimento de sinais de doença.

Fertilidade masculina ainda é investigada tardiamente

Quando a dificuldade para engravidar aparece, a investigação costuma começar pela mulher. Em muitos casos, ela passa primeiro por consultas e exames, enquanto a avaliação masculina fica para uma etapa posterior. Homens com menos de 40 anos, por exemplo, frequentemente não realizam exames relacionados à fertilidade.

Para o especialista em reprodução humana, Dr. João Guilherme Grassi, a investigação deve contemplar os dois parceiros desde o início do atendimento.

“A propedêutica do casal, que é o conjunto de exames e avaliações feitos para chegar ao diagnóstico, deve incluir os dois parceiros desde a primeira consulta, já que alterações no sêmen podem ser identificadas precocemente”, explica.

Segundo o especialista, adiar a avaliação masculina pode atrasar a identificação de alterações na concentração, na movimentação e na forma dos espermatozoides. Esse atraso pode comprometer as chances de gravidez, especialmente quando a parceira tem idade mais avançada.

A investigação simultânea permite identificar possíveis causas de infertilidade com mais rapidez e direcionar o tratamento de acordo com as necessidades de cada casal.

Sedentarismo, álcool e anabolizantes podem prejudicar a produção

A qualidade do sêmen pode ser influenciada por diferentes fatores, entre eles o estilo de vida. Sedentarismo, obesidade, estresse, alimentação inadequada, tabagismo e consumo excessivo de álcool estão associados a prejuízos na produção e na qualidade dos espermatozoides, com possíveis alterações na quantidade, na movimentação e na morfologia dessas células.

Outro ponto de atenção é o uso de anabolizantes, especialmente entre praticantes de atividades físicas que recorrem a esteroides para aumentar a massa muscular sem considerar os possíveis efeitos sobre a saúde reprodutiva.

Um estudo conhecido como HAARLEM, conduzido no hospital Spaarne Gasthuis, na Holanda, e publicado na revista Human Reproduction, acompanhou 100 atletas amadores antes, durante e por um ano após um ciclo de uso de esteroides.

Durante o uso das substâncias, 77% dos participantes apresentaram contagem total de espermatozoides inferior a 40 milhões. Ao final do acompanhamento, 34% ainda não haviam se recuperado. Na maioria dos casos, a recuperação da produção levou cerca de um ano.

Os resultados mostram que o uso de anabolizantes pode comprometer temporariamente a fertilidade e que a recuperação não ocorre de forma imediata ou igual para todos. Por isso, o uso dessas substâncias sem indicação e acompanhamento médico representa um risco que vai além dos efeitos estéticos ou musculares.

Espermograma é o principal exame inicial

A investigação da fertilidade masculina geralmente começa pelo espermograma, exame que avalia características do sêmen, incluindo a quantidade, a movimentação e a forma dos espermatozoides.

Conforme os resultados e o histórico clínico do paciente, o médico pode solicitar exames complementares, como avaliações hormonais e genéticas, para identificar possíveis causas das alterações e definir a conduta mais adequada.

A orientação é que casais procurem avaliação médica após 12 meses de tentativas de gravidez sem sucesso. Quando a mulher tem 35 anos ou mais, a recomendação é iniciar a investigação após seis meses.

Há situações, porém, em que não é necessário esperar esses prazos. Homens com histórico de varicocele, cirurgia nos testículos, uso de anabolizantes ou tratamento contra o câncer podem buscar avaliação antecipada, inclusive antes de começar as tentativas de gravidez.

“O casal deve buscar avaliação após um ano de tentativas sem sucesso, ou depois de seis meses quando a mulher tem 35 anos ou mais. Já o homem que tem histórico de varicocele, cirurgia nos testículos, uso de anabolizantes ou tratamento contra o câncer não precisa esperar esse prazo e pode fazer a investigação antes mesmo de tentar engravidar”, orienta Grassi.

Prevenção também é cuidar da saúde reprodutiva

O alerta do Novembro Azul é que o cuidado com a saúde masculina não deve se limitar à procura por atendimento quando surgem sintomas. Consultas preventivas, hábitos saudáveis e investigação adequada de possíveis alterações são medidas importantes para preservar a saúde e identificar problemas precocemente.

Quando o assunto é fertilidade, a responsabilidade também precisa ser compartilhada. A avaliação dos dois parceiros desde o início evita atrasos no diagnóstico e permite que o casal receba orientação médica de forma mais rápida e individualizada.

A saúde reprodutiva masculina, portanto, merece espaço nas campanhas de conscientização: cuidar da fertilidade é parte do cuidado integral com a saúde do homem.