Meta é quadruplicar cobertura vegetal até 2030 com mutirões comunitários, irrigação por reuso e educação ambiental; moradores já relatam queda térmica de até 3°C
Enquanto grandes cidades sufocam com recordes de calor, Montes Claros protagoniza uma silenciosa revolução verde. A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Ambiente, Bem-Estar Animal e Sustentabilidade, converteu a rotina básica de jardinagem em um plano estruturante de reestruturação ecológica. Diariamente, equipes especializadas não apenas podam e plantam: recuperam nascentes urbanas, instalam jardins de chuva e transformam canteiros de avenidas em corredores biológicos.
O programa “Raízes do Norte” já contabiliza neste semestre 47.300 mudas nativas do Cerrado – ipês, aroeiras e pequis – além de 128 toneladas de grama instaladas em áreas degradadas. Os números representam um salto de 340% em relação a 2024. Mas a grande mudança substantiva está na lógica. O secretário Carlos Henrique Mourão explica: “Antes, a manutenção era reativa. Hoje, mapeamos termograficamente a cidade por satélite e priorizamos os microclimas mais críticos. Plantar árvore virou saúde pública.”
Dados da Unimontes comprovam: bairros com alta densidade de novas intervenções tiveram sensação térmica reduzida entre 2,8°C e 3,5°C, e a umidade relativa do ar subiu nove pontos percentuais. A poeira, problema crônico na região, caiu 41% segundo a Fundação Municipal de Meio Ambiente.
Outra inovação substantiva é a irrigação inteligente. Duas estações móveis tratam água cinza de creches e escolas – antes descartada na rede pluvial – e alimentam gotejadores subterrâneos. A economia: 850 mil litros por mês. Na Praça Dr. Chaves, os canteiros floresceram mesmo na estiagem severa de 2025 sem uso de caminhão-pipa.
O programa “Adote uma Calçada Viva” mobiliza 1.230 moradores e 45 empresas. Dona Maria Aparecida, 63, relata: “Minha calçada tinha só cimento. Hoje tenho romãs, jabuticaba e beija-flores. Meu neto largou o celular para regar.” Nas escolas, a disciplina “Ciência do Verde Urbano” já formou 4 mil crianças em mutirões de plantio.
Apesar de resistência inicial de comerciantes, a prefeitura substituiu árvores de grande porte por palmeiras jerivás e criou vagas sombreadas, elevando em 15% a frequência de consumidores. A meta do plano diretor é atingir 22 m² de área verde por habitante até 2030 – superando a OMS (12 m²) e capitais como SP (8 m²). Hoje, Montes Claros tem 9,7 m².
No Hospital Universitário, os atendimentos por crises respiratórias caíram 32% nos bairros contemplados. O pneumologista Ricardo Lemos resume: “Cada árvore adulta retira 30 kg de poeira por ano. Estamos vendo o fim da fama de ‘cidade do vento poeirento’.”
A Prefeitura finaliza o plantio de 20 mil mudas no Anel Rodoviário – uma cortina verde contra a poeira das lavouras. Todo último sábado há mutirão aberto. Basta levar uma pá. O resto, a cidade semeia.



