Projeto reúne história, acervos, tecnologia e experiências imersivas para preservar a tradição musical da cidade e ampliar as opções de visitação durante todo o ano
Diamantina se prepara para transformar em espaço permanente uma das características mais marcantes de sua identidade: a música. O projeto do Memorial da Música de Diamantina será apresentado ao público no dia 8 de outubro, às 20h, na Escola de Artes e Música Maestro Francisco Nunes, com entrada gratuita.
A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Prefeitura de Diamantina e o Festival de História (fHist) e prevê a criação de um equipamento cultural dedicado à preservação, pesquisa e divulgação da trajetória musical da cidade. A proposta é reunir documentos, exposições, registros históricos, recursos tecnológicos e experiências interativas capazes de contar essa história desde o século XVIII e, ao mesmo tempo, estabelecer conexões com a formação da música brasileira.
A trajetória musical de Diamantina atravessa diferentes períodos e manifestações. Está presente na produção de Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, nas serestas, nas bandas centenárias, nos corais e orquestras, nas festas religiosas e manifestações populares e, mais recentemente, na Vesperata, quando músicos ocupam sacadas do Centro Histórico e transformam as ruas em palco.
O projeto prevê exposição permanente e mostras temporárias, sala de projeções, núcleos de acervo documental e educativo, palco para apresentações e terminais interativos. A intenção é combinar documentos e registros históricos com recursos audiovisuais e tecnológicos, permitindo ao visitante não apenas conhecer, mas também experimentar parte da memória musical da cidade.
Espaço poderá funcionar em casarão histórico
A previsão é que o Memorial seja instalado em um dos casarões do Centro Histórico que passam por obras de recuperação realizadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela Prefeitura, com recursos do PAC 2 do Governo Federal.
Entre os imóveis estão o antigo prédio da Intendência dos Diamantes e o Hotel Roberto, ambos destinados a receber usos culturais. A definição do espaço que poderá abrigar o Memorial faz parte da estruturação do projeto.
Segundo o jornalista Otto Sarkis, um dos coordenadores do fHist, a ideia surgiu a partir da percepção de que os imóveis restaurados poderiam receber equipamentos relacionados diretamente à história e à identidade de Diamantina. A musicalidade acabou sendo apontada como um dos elementos mais representativos para a construção dessa proposta.
“Américo Antunes consolidou a proposta apontando para a musicalidade, característica marcante da cidade”, explica Sarkis.
Diamantina é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1999 e possui uma tradição musical que se manifesta tanto em espaços religiosos quanto nas ruas, praças e residências. A produção barroca dos séculos XVIII e XIX, as serestas, bandas, corais, festas populares e eventos contemporâneos fazem parte desse patrimônio.
Para Sarkis, a diversidade dessas manifestações é justamente um dos aspectos que justificam a criação de um espaço dedicado exclusivamente à memória musical.
Participação de músicos e moradores
A construção do acervo deverá envolver a própria comunidade. A proposta é reunir depoimentos, documentos, fotografias, registros e outros materiais que possam ajudar a reconstruir diferentes períodos da história musical de Diamantina.
Músicos e moradores estão entre os principais públicos que deverão ser chamados a contribuir com o projeto. A intenção é fazer com que o Memorial não seja apenas um espaço de exposição, mas também um núcleo de pesquisa, educação e preservação da memória local.
“A musicalidade desta população é marcante, diferente de tudo o que conhecemos”, afirma Sarkis, ao destacar a presença da música em procissões, bandas, serestas, corais e apresentações como a Vesperata.
Música também movimenta o turismo
Além da preservação cultural, o Memorial poderá integrar a estratégia de diversificação do turismo em Diamantina. A cidade recebe visitantes atraídos principalmente pelo patrimônio histórico, pelas festas e pelos eventos musicais, mas parte da movimentação ainda está concentrada em períodos específicos do calendário.
Levantamento realizado em 2025 pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (Sedetur), em parceria com a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), ouviu 823 visitantes durante eventos como Carnaval, Semana Santa, Corpus Christi, Vesperata, Motofest e Sertão Diamante.
A pesquisa apontou que 55,7% dos entrevistados já haviam visitado Diamantina anteriormente. A cidade conta atualmente com aproximadamente 95 meios de hospedagem e cerca de 2,7 mil leitos. Em períodos de maior movimento, como Carnaval, Corpus Christi e Vesperata, a ocupação chega a variar entre 90% e 100%.
A música tem participação importante nesse fluxo. Em 2025, a Vesperata teve 16 apresentações oficiais, com público médio estimado em 1,2 mil pessoas por edição e cerca de 19,2 mil espectadores ao longo do ano.
A maior parte dos visitantes entrevistados, 77,98%, veio da região Sudeste, principalmente de Minas Gerais. Também foram registrados turistas de outras regiões brasileiras e do exterior.
Proposta é aumentar o tempo de permanência
Um dos objetivos associados ao Memorial é ampliar as opções de atividades para quem visita Diamantina fora dos grandes eventos. Como equipamento permanente, o espaço poderá ser incorporado ao roteiro do Centro Histórico, ao lado de igrejas, museus, monumentos, casarões, ruas, gastronomia e outros atrativos.
Os dados da pesquisa mostram que 52,6% dos visitantes permanecem na cidade entre dois e três dias. Outros 30,9% fazem viagens de apenas um dia. Apenas 15,3% ficam de quatro a sete dias, enquanto 1,2% permanecem por mais de uma semana.
A criação de novas atrações culturais pode, portanto, contribuir para ampliar a programação disponível ao visitante e estimular uma permanência maior, com possíveis reflexos sobre setores como hospedagem, alimentação, comércio, artesanato e serviços turísticos.
De acordo com o levantamento, 46% dos visitantes gastam mais de R$ 500 com hospedagem e 39% ultrapassam esse valor em alimentação. Cerca de 21% desembolsam mais de R$ 300 com entretenimento, enquanto quase metade dos entrevistados afirmou comprar artesanato e lembranças durante a passagem pela cidade.
História contada com tecnologia
O projeto prevê uma linha do tempo da musicalidade diamantinense, começando no século XVIII e avançando pelas diferentes fases da história da cidade. A proposta inclui recursos audiovisuais e interativos para aproximar o conteúdo de diferentes públicos.
Estudantes, escolas, pesquisadores, universidades, famílias, turistas brasileiros e estrangeiros estão entre os públicos que poderão ser alcançados pelo equipamento.
Para Walter Cardoso, conhecido como Juninho, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo, a criação de um espaço permanente poderá ampliar o circuito cultural da cidade e reunir registros de manifestações como Vesperata, serestas e bandas tradicionais.
A implantação deverá ocorrer por meio de parcerias e patrocínios culturais. Prefeitura e fHist firmaram Termo de Cooperação Cultural com vigência até julho de 2027, sem transferência de recursos financeiros entre as partes. Pelo acordo, o Festival de História participa da estruturação do projeto, incluindo ações relacionadas à Lei Federal de Incentivo à Cultura e à busca de potenciais patrocinadores.
O projeto está enquadrado na Lei Rouanet, sob a Proposta Cultural nº 566.339, tendo como proponente a Stratégia Cultura e Comunicação.
A apresentação de outubro marca, portanto, uma etapa de divulgação de uma proposta que pretende transformar parte da memória musical de Diamantina em um espaço permanente de cultura, pesquisa e visitação.
Serviço
Apresentação do projeto Memorial da Música de Diamantina
Data: 8 de outubro, quinta-feira
Horário: 20h
Local: Escola de Artes e Música Maestro Francisco Nunes
Endereço: Praça Dr. Prado, 129, Centro, Diamantina
Entrada: gratuita


