Aos 114 anos, Pirapora mantém viva sua identidade cultural com festas tradicionais, gastronomia e turismo às margens do Rio São Francisco, enquanto sonha com a retomada da navegação do lendário Benjamin Guimarães
Aos 114 anos, Pirapora segue tentando equilibrar memória, tradição e reinvenção às margens do Rio São Francisco. Durante décadas, a chamada “capital morena do Velho Chico” teve sua identidade diretamente ligada ao fluxo das águas do rio e ao lendário Benjamin Guimarães, que transformou a cidade em rota obrigatória para milhares de nordestinos rumo ao Sudeste e ao Sul do país.
Os tempos áureos da navegação, porém, ficaram para trás. O assoreamento do rio, a redução do volume de água e a paralisação do vapor mudaram profundamente a dinâmica econômica e cultural da cidade. Hoje, Pirapora enfrenta o desafio de preservar sua identidade histórica sem se tornar apenas uma lembrança nostálgica do passado.
Apesar das dificuldades, o município aposta na força de sua memória coletiva, do turismo cultural e dos grandes eventos populares para manter viva sua relevância regional. Segundo o presidente da Empresa Municipal de Turismo de Pirapora (EMUTUR), Elton Jackson, existe um esforço permanente para fortalecer a cultura local e impulsionar o turismo.






Atualmente, o calendário oficial de eventos de Pirapora conta com sete grandes festas tradicionais distribuídas ao longo do ano. Mais do que atrações festivas, os eventos funcionam como instrumentos de preservação cultural e movimentação econômica.
Entre os destaques está a Festa do Louvor ao Padroeiro de Pirapora, realizada em 20 de janeiro desde 1918, ano da inauguração da Igreja Matriz, localizada na Praça Coronel Ramos, no centro da cidade. A programação religiosa e festiva ocorre desde a década de 1920 e mobiliza fiéis de diversas comunidades. Além da celebração ao padroeiro, as tradicionais quermesses dedicadas a Maria, em maio, e a Santo Antônio, em junho, também movimentam as paróquias locais.
Outro símbolo da cultura piraporense é o Carnaval, conhecido como PiraFolia. Durante décadas, a festa tornou a cidade reconhecida nacionalmente pela animação e pelo grande fluxo de foliões. Gratuito e realizado na orla fluvial, o evento reúne shows musicais, blocos caricatos, batucadas e atividades culturais organizadas pela Prefeitura e pela EMUTUR.
O Encontro Nacional de Motociclistas, promovido desde 2003 pelo motoclube Kalangos do Sertão durante o feriado de Corpus Christi, também se consolidou como um dos maiores eventos do gênero em Minas Gerais. Realizado na orla da cidade, o encontro reúne motociclistas de várias regiões do país, com shows de rock, apresentações acrobáticas, praça de alimentação e feira de produtos.
As comemorações do aniversário da cidade, celebrado em 1º de junho, também ocupam lugar de destaque no calendário oficial. Além do tradicional desfile cívico-militar e estudantil, a programação inclui shows musicais, inaugurações e eventos culturais na praça da orla fluvial.
Já a Festa do Sol, criada no fim da década de 1980, voltou a integrar o calendário turístico após mais de duas décadas interrompida. Retomada há quatro anos, a festa ocorre na semana do feriado de 7 de setembro e reúne atrações culturais, eventos esportivos e grandes shows musicais, atraindo visitantes de diversas regiões do estado.
A gastronomia também ganhou protagonismo na estratégia de fortalecimento turístico do município. Desde 2024, o Festival Gastronomia & Arte de Pirapora reúne bares e restaurantes em torno da criação de pratos inéditos, com apoio técnico do SEBRAE-MG, da Prefeitura e da EMUTUR.
A culinária típica de Pirapora mantém forte ligação com o Rio São Francisco. Entre os pratos mais tradicionais estão a moqueca de surubim, o peixe na brasa, o pirão e as fritadas de peixe, elementos que ajudam a preservar a identidade barranqueira da cidade.
Outro evento que movimenta o turismo local é o Réveillon Popular, realizado na orla fluvial. A programação gratuita reúne moradores, visitantes e turistas em torno de shows musicais e da tradicional queima de fogos às margens do Velho Chico.
Além dos grandes eventos anuais, Pirapora também mantém iniciativas permanentes de incentivo ao empreendedorismo e à economia criativa. Semanalmente, a Prefeitura e a EMUTUR apoiam a Feira das Mulheres Empreendedoras, na Praça Padre Léo, no bairro Nova Pirapora; a Feira Comunitária da Associação de Moradores do Bairro São João; e o projeto cultural Café da Roça, realizado aos sábados no Mercado Municipal.
O futuro do Benjamin Guimarães, no entanto, continua sendo uma das maiores expectativas dos moradores e turistas. A possibilidade de o vapor voltar a navegar depende da dragagem dos canais do Rio São Francisco, afetados pelo assoreamento.
Segundo Elton Jackson, o prefeito Alex Cesar buscou apoio junto ao então ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que assegurou a liberação de R$ 3 milhões para obras de sinalização e dragagem em um trecho de 14 quilômetros do rio.
Enquanto a retomada da navegação não se concretiza, o vapor segue aberto à visitação pública. Atualmente, as visitas ocorrem de quinta-feira a sábado para o público em geral, além de programações específicas às terças e quintas-feiras destinadas a instituições de ensino.
Entre o passado glorioso e os desafios do presente, Pirapora segue tentando manter viva a relação histórica com o Velho Chico, apostando na cultura, no turismo e na memória como caminhos para construir o futuro. (JOÃO PEDRO ISSA, COLABORADOR)



